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Pieve – Os Grand Crus ido Vino Nobile di Montepulciano

Pieve – Os Grand Crus ido Vino Nobile di Montepulciano

20/02/2026

Marcelo Copello

Itália

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Em recente viagem a Toscana, para o evento Anteprima del Vino Nobile di Montepulciano 2026, participei de uma prova com 28 vinhos da nova classificação PIEVE, que equivale aos Grand Crus desta DPCG. A seguir um guia completo para entender esta nova categoria, com um ranking das provas que fiz.

A nova menção “Pieve”

A nova menção “Pieve” para o Vino Nobile di Montepulciano DOCG é, na prática, a tentativa mais ambiciosa (e mais “toscana”) de resolver uma tensão antiga da denominação: como elevar o topo da pirâmide qualitativa sem abandonar a identidade do sangiovese local (o prugnolo gentile) e, ao mesmo tempo, transformar em regra aquilo que os produtores sempre souberam empiricamente — que Montepulciano não é “um” terroir, mas um mosaico de colinas, exposições, altitudes e matrizes geológicas distintas. A lógica do projeto é dupla: por um lado, zonazione (mapeamento geo-pedológico e histórico do território) e, por outro, um disciplinare de produção mais restritivo, pensado para posicionar o “Pieve” acima do Nobile “clássico” e, em intenção, como um Grand Cru: um vinho que nasce de uma unidade geográfica específica — pela legislação do vinho italiano, uma Unità Geografica Aggiuntiva (UGA) — com regras de viticultura, uvas e amadurecimento mais exigentes, e que pretende expressar diferenças reconhecíveis entre doze áreas delimitadas.

O termo pieve remete às antigas paróquias rurais. Na Idade Média, deslocar-se pelo campo até a igreja principal para a missa dominical era difícil; por isso, criaram-se pequenas igrejas locais (as pievi), muitas ainda existentes. O Consorzio resgatou essa tradição para nomear as 12 UGA escolhidas — correspondentes a 12 pievi históricas — que passam a ser citadas obrigatoriamente, sempre precedidas pela palavra “Pieve”, no rótulo. A escolha não é apenas romântica: ela se apoia em pesquisa do terroir e na intenção de tornar mais legível (e rastreável) a diversidade interna de Montepulciano.

Quando surgiu e o que representa
Após um longo trabalho, a estreia comercial das Pievi foi em 2025, com base na safra 2021. Os vinhos são aprovados por uma comissão de enólogos e técnicos do Consorzio, reforçando a ideia de que “Pieve” deve ser mais do que um nome: precisa ser um patamar qualitativo verificável.

Do ponto de vista do consumidor (e do trade), “Pieve” foi desenhado para comunicar três coisas ao mesmo tempo: primeiro, origem mais precisa, já que o vinho vem de uma das 12 UGA delimitadas e nomeadas; segundo, regra mais rígida de composição, com percentual mínimo de sangiovese mais alto e complementares limitados; terceiro, regra mais rígida de maturação, com três anos mínimos e exigências específicas de madeira e garrafa.

Regras do Pieve
Aqui está o núcleo técnico — o que, de fato, torna o “Pieve” mais do que marketing.

O Vino Nobile di Montepulciano “Pieve” é produzido dentro do território do Comune di Montepulciano. Só podem ser usados vinhedos com mínimo de 15 anos, em altitude entre 250 e 600 m, administrados diretamente pela empresa engarrafadora, o que fortalece o controle sobre a matéria-prima e a coerência do estilo.

Na composição, o Pieve exige sangiovese (prugnolo gentile) mínimo de 85%. Os complementares permitidos ficam limitados a canaiolo nero, ciliegiolo nero, mammolo nero e colorino nero, sendo este último com teto específico de máximo 5% dentro dos 15% totais. Em outras palavras: o Pieve é deliberadamente “fechado” para variedades internacionais e até para complementares genéricos, apostando em castas tradicionais locais.

Em rendimento, a produtividade máxima cai para 7.000 kg/ha e há ainda um limite adicional de 2,5 kg por planta. No mundo real, isso empurra o produtor para poda e condução mais severas e tende a uniformizar maturação fenólica, concentração e equilíbrio.

No amadurecimento, o vinho deve maturar mínimo de 3 anos, contados a partir de 1º de janeiro após a colheita. Dentro desses 36 meses, são obrigatórios mínimo de 12 meses em madeira e mínimo de 12 meses em garrafa. Além disso, o exame químico-físico e organoléptico ocorre apenas ao final do período de garrafa, reforçando a ideia de que o vinho deve chegar ao mercado com “costura” já feita pela integração pós-madeira.

Nos parâmetros analíticos, o disciplinare do Pieve eleva o piso: álcool mínimo 13%, acidez total mínima 5,0 g/L e extrato não redutor mínimo 26 g/L. Há ainda um item particularmente moderno (e revelador): um teto para fenóis voláteis de máximo 450 μg/L, sinalizando controle adicional de desvios aromáticos ligados a evolução/oxidação/microbiologia e uma tentativa clara de “limpar” o perfil do topo da denominação.

A reivindicação da menção “Pieve” é permitida até 31 de dezembro do ano seguinte à colheita — ou seja, o produtor tem uma janela longa para decidir se aquele lote realmente merece subir para o patamar Pieve, o que é coerente com o caráter de seleção.

Regras de rotulagem
O Pieve existe para ser lido. A legislação é explícita: o nome da UGA deve vir precedido por “Pieve”, e o conjunto deve aparecer integralmente no rótulo, seguindo a sucessão indicada (com “Toscana” também presente como termo geográfico mais amplo). Há também regra tipográfica: “Vino Nobile di Montepulciano” deve aparecer com caracteres uniformes (tipo/estilo/espessura/cor), e o termo “Pieve + UGA” pode ter dimensão até 50% maior do que “Vino Nobile di Montepulciano”, permitindo que a unidade territorial seja o protagonista visual do rótulo.

As 12 pievi (UGA oficiais)
As doze unidades reconhecidas para acompanhar a menção “Pieve” são: Ascianello, Badia, Caggiole, Cerliana, Cervognano, Gracciano, Le Grazie, San Biagio, Sant’Albino, Sant’Ilario, Valardegna e Valiano. A cartografia oficial delimita os confins de cada UGA, e o texto legal descreve os perímetros em detalhe (estradas vicinais, rios/fossos e referências locais), deixando claro que se trata de uma delimitação administrativa do terroir — e não apenas de um mapa ilustrativo.

Como interpretar o terroir aqui
Mesmo antes de qualquer degustação, há elementos estruturais que ajudam a prever estilos. Montepulciano é marcada por combinações de argilas, areias (muitas de origem marinha/antiga) e componentes calcários, além de depósitos flúvio-lacustres na direção de transição com a Valdichiana. A diferença, muitas vezes, está menos “no que existe” e mais “em que proporção existe”: variações entre argila versus areia versus limo versus calcário mudam vigor, retenção hídrica, temperatura do solo, disponibilidade de água no verão e, consequentemente, a forma do tanino, a acidez percebida, a maturação aromática e o “peso” de boca.

Além disso, o disciplinare estabelece altitude de 250 a 600 m, e isso é crucial. Em um sangiovese de perfil clássico, altitude e exposição modulam (i) velocidade de maturação de açúcares, (ii) preservação de acidez, (iii) qualidade do tanino (granulação) e (iv) estabilidade de cor. Em anos quentes, áreas mais altas e ventiladas tendem a segurar melhor tensão e precisão aromática; em anos frios, zonas mais ensolaradas e/ou com solos que aquecem mais rápido podem alcançar maturação fenólica com maior regularidade.

Leitura rápida de cada pieve
Sem cair na armadilha de prometer “sabores fixos”, dá para propor uma leitura técnico-territorial usando posição relativa, morfologia e matriz de solos (como indicado pelo material compilado pelo Consorzio e pelo desenho do mapa oficial).

Badia – Setor norte/noroeste do município, com colinas e transições de solo que tendem a combinar estrutura e frescor. Pela posição, costuma ser interpretada como área de boa ventilação e amplitude térmica, favorecendo perfis mais lineares e firmes.

Ascianello – Noroeste, adjacente a Badia. Por estar no arco superior do recorte, tende a ser vista como zona de colina e definição, com potencial para taninos mais tensos quando o sangiovese é colhido no ponto.

Gracciano – Faixa norte/central, ampla, funcionando como uma espécie de “cintura” do recorte. Em muitos mapas de zonazione, áreas centrais amplas apresentam grande diversidade interna; aqui, o Pieve tenta justamente recortar e nomear essa diversidade para o rótulo.

Le Grazie – Oeste/centro-oeste, relativamente próxima ao núcleo urbano. Pode funcionar como ponte entre a estrutura das zonas mais altas e a maciez de setores com maior componente argiloso.

San Biagio – Oeste/sudoeste, uma das áreas mais extensas do lado ocidental. A leitura clássica para setores mais “baixos” ou com mais argila (quando presentes) é de maior volume e fruta, mas isso varia muito por sítio; o Pieve existe justamente para tornar esse tipo de leitura menos genérica, com o tempo.

Caggiole – Pequena “ilha” central próxima ao núcleo urbano (no mapa, aparece como unidade estreita). Em geral, UGA pequenas tendem a ser mais homogêneas; se isso se confirmar em garrafa, Caggiole pode virar uma das pievi mais “fáceis” de reconhecer no futuro.

Cerliana – Centro/leste do núcleo, área de transição importante. Zonas de transição combinam texturas (areias/argilas/limo) e podem gerar sangiovese de meio de boca muito completo, especialmente quando há equilíbrio hídrico no verão.

Cervognano – Sudeste, puxando para o lado oriental. A leitura técnica típica para setores com maior drenagem e sol da manhã é de taninos mais polidos e aromática mais aberta cedo — embora isso dependa muito da condução e do ponto de colheita.

Valardegna – Sul/centro-sul, relativamente próxima ao eixo central. A posição sugere combinação de colina e encostas capazes de gerar estrutura, com potencial de longevidade (o que conversa com a exigência de 12 + 12 meses madeira/garrafa).

Sant’Albino – Sul/sudoeste do recorte, uma das bases do mapa oficial. Em muitos territórios do sangiovese, setores meridionais (dependendo da altitude) podem produzir vinhos mais amplos; a regra de rendimento e o piso analítico do Pieve atuam aqui como freio contra qualquer tendência a excesso de maturação.

Sant’Ilario – Grande área sudeste/leste, em “cunha”. Há descrições de solos na comunicação do Consorzio que citam materiais mais limosos/arenosos, por vezes compactos, e componente calcário em certas partes, além de terraços flúvio-lacustres em áreas mais baixas rumo à Val di Chiana. Isso sugere paleta ampla de perfis dentro da unidade, reforçando a importância do sítio e da seleção.

Valiano – Extremo leste/nordeste, próximo da transição com a planície (que não entra no Pieve). A proximidade com essa transição costuma significar mudanças de solo e regime térmico; por isso, Valiano tende a ser um laboratório natural para entender a fronteira entre colina “nobre” e influência de depósitos mais recentes.

Por que isso é relevante (e por que agora)
O “Pieve” chega num contexto em que várias denominações italianas vêm adotando ou reforçando sistemas de unidades geográficas (UGA) para traduzir terroir em rótulo. No caso de Montepulciano, há um componente simbólico adicional: o Nobile foi um dos primeiros vinhos com classificação DOCG na Itália, e a criação de um topo de gama territorial (“Pieve”) é um gesto claro de ambição. O mundo está “borgonhizando” (acabo de inventar o termo) — e o Nobile não quer ficar fora desta onda.

Tecnicamente, o disciplinare do Pieve é inteligente por combinar quatro alavancas que realmente alteram o resultado no copo: rendimento mais baixo, composição (mais sangiovese e complementares restritos), tempo (três anos de amadurecimento/envelhecimento) e controle de fenóis voláteis. Isso tende a produzir vinhos com mais densidade, taninos mais resolvidos, maior consistência de estilo e maior precisão.

Se o sistema vai “funcionar” sensorialmente — isto é, se consumidores e críticos reconhecerão diferenças recorrentes entre as Pievi — só alguns anos de mercado dirão. Mas, do ponto de vista regulatório, o Pieve já nasce com um conjunto de escolhas que o coloca entre as iniciativas italianas mais sérias de valorização territorial dentro de uma DOCG consolidada.

RANKING dos 28 Pieve avaliados

NOTA/VINHO/SAFRA

94  Pieve Cervognano Vecchia Cantina di Montepulciano “Vallocaia” 2022

94  Pieve Cervognano Le Berne “Alto” 2022

93  Pieve Sant’Albino Carpineto “Poggio Sant’Enrico Grande” 2021

93  Pieve Gracciano Tenuta di Gracciano della Seta 2021

93  Pieve Cervognano Guidotti 2022

93  Pieve Cerliana La Ciarliana 2022

93  Pieve Caggiole Poliziano 2021

92  Pieve Sant’Albino Carpineto “Poggio Sant’Enrico Grande” 2022

92  Pieve Le Grazie Talosa “Vigna Chiusi” 2021

92  Pieve Cerliana Vecchia Cantina di Montepulciano (Cantina dei Soci) 2022

91  Pieve San Biagio Le Bertille 2021

91  Pieve Cervognano Marchesi Frescobaldi – Tenuta Calimaia “Vallocaia” 2022

91  Pieve Cervognano Fattoria Svetoni 2021

91  Pieve Cervognano Boscarelli “Costa Grande” 2022

91  Pieve Cervognano Boscarelli “Costa Grande” 2021

91  Pieve Cerliana Tenuta Valdipiatta 2021

91  Pieve Caggiole Poliziano 2022

91  Pieve Caggiole Podere Tiberini 2021

90  Pieve San Biagio Le Bertille 2022

90  Pieve Gracciano Tenuta di Gracciano della Seta 2022

89  Pieve Cerliana Antico Colle 2022

89  Pieve Caggiole Podere Tiberini 2022

Marcelo Copello

Marcelo Copello


Marcelo Copello é um dos principais formadores de opinião da indústria do vinho no Brasil, com expressiva carreira internacional. Eleito “O MAIS INFLUENTE JORNALISTA DE VINHOS DO BRASIL” pela revista Meininger´s Wine Business International, e “Personalidade do Vinho” 2011 e 2013 pelo site Enoeventos.

Curador do RIO WINE AND FOOD FESTIVAL, e Publisher do Anuário Vinhos do Brasil, colaborador de diversos veículos de imprensa, colunista da revista Veja Rio online. Professor da FGV, apresentador de rádio e TV, jurado em concursos internacionais de vinho, como o International Wine Challenge (Londres). Copello tem 6 livros publicados, em português, espanhol e inglês, vencedor do prêmio Gourmand World Cookbook Award 2009 em Paris e indicado ao prêmio Jabuti.

Especialista no mercado e nos negócios do vinhos, fazendo palestras no Brasil e no exterior, em eventos como a London Wine Fair (Londres). Copello é hoje um dos palestrantes mais requisitados. Para saber mais sobre as palestras e serviços de Copello clique AQUI

  

Contato: contato@marcelocopello.com