Em recente viagem a Toscana, para o evento Anteprima del Vino Nobile di Montepulciano 2026, pude provar mais de 100 de vinhos desta DOCG e confirmar sua qualidade. A seguir um guia completo para conhecer e apreciar este clássico toscano, com uma seleção dos melhores vinhos que provei.
Conheça o Nobile
O Vino Nobile di Montepulciano nasce na Toscana, na província de Siena, no sudeste da região, entre o Val d’Orcia e o Val di Chiana. A belíssima cidade de Montepulciano, medieval e situada sobre colinas que variam entre 250 e 600 metros de altitude, é o centro da denominação. O clima é continental moderado, com verões quentes e secos e boa amplitude térmica, fator importante para a maturação equilibrada da uva. Os solos combinam argilas, areias e sedimentos marinhos antigos, o que contribui para diferentes nuances dentro do próprio território.
É essencial esclarecer uma confusão comum: Vino Nobile di Montepulciano não tem relação com a uva montepulciano usada no Montepulciano d’Abruzzo. São vinhos distintos, de regiões diferentes. O Vino Nobile é feito majoritariamente com sangiovese, chamada localmente de prugnolo gentile.
A uva e o corte
A base do Vino Nobile é a sangiovese (prugnolo gentile), que deve representar no mínimo 70% do corte, segundo a legislação atual. O restante pode ser composto por outras uvas autorizadas na Toscana, principalmente variedades tintas. Hoje, a tendência é trabalhar quase exclusivamente com sangiovese ou com pequenos percentuais de castas complementares tintas, buscando maior identidade territorial.
Em termos de estilo, o Vino Nobile costuma ocupar uma posição intermediária entre o Chianti Classico e o Brunello di Montalcino. Não é tão austero e estruturado quanto um Brunello, mas geralmente apresenta mais densidade e profundidade do que muitos Chiantis.
Histórico
O termo “Nobile” tem origem histórica real. Desde o século XVI, o vinho de Montepulciano era apreciado pela nobreza toscana e por famílias aristocráticas locais. Ao longo dos séculos, consolidou reputação de vinho de prestígio.
No século XX, a denominação foi oficialmente reconhecida como DOC em 1966 e, em 1980, tornou-se uma das primeiras da Itália a receber o selo DOCG (Denominazione di Origine Controllata e Garantita), a categoria mais alta da legislação italiana. Esse reconhecimento reforçou sua posição entre os grandes vinhos clássicos do país.
Classificações oficiais e principais regras
A estrutura qualitativa de Montepulciano pode ser compreendida em ordem crescente de complexidade e exigência: Rosso di Montepulciano DOC, Vino Nobile di Montepulciano DOCG, Vino Nobile Riserva e Vino Nobile com menção Pieve.
O Rosso di Montepulciano DOC é a porta de entrada da região. Trata-se de um vinho mais jovem, fresco e frutado, geralmente com menor influência de madeira e liberação mais precoce ao mercado. A legislação exige composição majoritária de sangiovese (mínimo de 70%), graduação alcoólica mínima em torno de 12%, e rendimento máximo mais generoso que o do Nobile, podendo chegar a cerca de 9 toneladas por hectare (ou aproximadamente 70 hl/ha, conforme conversão). O envelhecimento obrigatório é mais curto, normalmente alguns meses, sem exigência prolongada de maturação antes da comercialização.
O Vino Nobile di Montepulciano DOCG representa o núcleo histórico e qualitativo da denominação. Deve conter no mínimo 70% de sangiovese (prugnolo gentile). O rendimento máximo permitido é mais restritivo, cerca de 8 toneladas por hectare (aproximadamente 56 hl/ha), buscando maior concentração e qualidade. A graduação alcoólica mínima é de 12,5%. O envelhecimento obrigatório é de pelo menos dois anos, contados a partir de 1º de janeiro após a colheita. Parte desse período costuma ocorrer em madeira, seja em grandes botti tradicionais, seja em barricas, embora a legislação não imponha um tempo mínimo específico em carvalho — apenas o tempo total de maturação antes da venda.
A categoria Riserva eleva as exigências. Mantém as mesmas regras de composição e rendimento do Nobile, mas exige envelhecimento mínimo de três anos antes da comercialização. A graduação alcoólica mínima sobe ligeiramente, geralmente para 13%. O resultado costuma ser um vinho mais estruturado, complexo e com maior potencial de guarda, apresentando evolução aromática mais evidente.
No topo qualitativo está a menção Pieve, introduzida recentemente para destacar subzonas históricas específicas dentro do território de Montepulciano. Os vinhos Pieve devem ser elaborados exclusivamente com uvas provenientes da subzona indicada no rótulo, respeitando regras ainda mais rigorosas de produção, incluindo rendimentos mais baixos e exigências adicionais de maturação. A graduação alcoólica mínima segue o padrão elevado da categoria superior e o envelhecimento mínimo acompanha o do Nobile (ou mais, conforme enquadramento como Riserva). A proposta das Pieve é reforçar a identidade territorial e a expressão de terroir, tema que merece aprofundamento específico.
Em todas as categorias, os vinhos passam por análises químicas e avaliação sensorial antes da certificação, garantindo conformidade com os parâmetros da DOC ou DOCG.
Estilo e perfil sensorial
O Vino Nobile costuma apresentar cor rubi intensa, aromas de cereja madura, ameixa, flores secas e ervas mediterrâneas. Com o envelhecimento, surgem notas de especiarias, couro, tabaco e nuances terrosas elegantes.
Em boca, é um vinho de médio a encorpado, com taninos presentes, mas geralmente mais polidos do que os do Brunello. A acidez é equilibrada, conferindo frescor e capacidade de envelhecimento. O estilo geral privilegia harmonia e elegância, evitando extremos de potência ou de leveza.
A madeira pode variar conforme o produtor. Tradicionalmente, utilizam-se botti grandes de carvalho, mas muitos produtores também empregam barricas francesas, ou uma combinação de ambas. Nos últimos anos, observa-se tendência de reduzir a marca excessiva de madeira, buscando maior pureza de fruta.
Tendências e novidades
Nos últimos anos, o Vino Nobile vive um momento de redefinição. A criação das Pieve reforça o foco na expressão específica do território. Há crescimento significativo de práticas sustentáveis e produção orgânica. Também se percebe esforço coletivo do consórcio para afirmar uma identidade própria, evitando a comparação constante com Brunello ou Chianti.
A tendência atual valoriza elegância, precisão e equilíbrio, em vez de concentração excessiva ou extração exagerada.
Harmonização e guarda
O Vino Nobile combina muito bem com massas ao molho de carne, cordeiro, carnes assadas, risotos de cogumelos e queijos curados. Sua estrutura média a alta e boa acidez permitem acompanhar pratos de intensidade intermediária sem sobrecarregar o paladar.
Em termos de guarda, bons exemplares podem evoluir por 10 a 20 anos com facilidade, enquanto grandes Riservas e Pieves podem ultrapassar esse período. Com o tempo, desenvolvem maior complexidade aromática e textura mais sedosa.
Essência e Identidade
O Vino Nobile di Montepulciano é um clássico da Toscana que alia tradição secular, elegância estrutural e um momento contemporâneo de renovação. Não é um vinho de modismo, mas de identidade histórica sólida. Para quem aprecia a sangiovese em sua versão equilibrada e refinada, Montepulciano oferece uma das interpretações mais interessantes e, muitas vezes, ainda subestimadas da Toscana.
Ranking da Prova
Categoria Vino Nobile di Montepulciano
Nota/Produtor/Safra
94 La Combàrbia 2022
93 De’ Ricci 2022
93 Barbicaja 2021
93 Contucci 2021
93 Boscarelli 2023
93 Poderi Sanguineto I e II 2023
93 Guidotti 2023
93 Tenuta di Gracciano della Seta 2023
93 Az. Agr. Crociani 2023
92 Il Macchione 2022
92 Podere Tiberini “Podere Le Caggiole” 2022
92 Il Conventino 2022
92 Godiolo 2022
92 Cantina Fassati - Fattoria Salteccio “Pasiteo” 2021
92 Luteraia 2020
92 Montemercurio “Messaggero” 2020
92 Avignonesi 2023
92 Il Molinaccio di Montepulciano “La Spinosa” 2023
92 Poliziano 2023
91 Ercolani 2022
91 Le Bèrne 2023
91 La Ciarliana 2023
91 Lunadoro “Pagliareto” 2023
91 Tenuta Fontenuova 2023
90 Cantina Chiacchiera 2022
90 Cantina D&D “Il Massaro” 2022
90 Icario 2021
90 Palazzo Vecchio “Maestro” 2021
90 Le Bertille 2023
90 Marchesi Frescobaldi - Tenuta Calimaia 2023
90 Talosa “Alboreto” 2023
90 Raspanti 2023
90 Tenuta Poggio alla Sala 2023
89 Tenuta Golo 2022
89 Bindi Sergardi 2021
89 Vecchia Cantina di Montepulciano “Cantina del Redi” 2023
89 Tenuta Trerose “Santa Caterina” 2023
88 Fanetti - Tenuta S. Agnese 2022
88 Fattoria del Cerro “Silineo” 2022
88 Lombardo 2022
88 Fattoria Svetoni 2023
88 Manvi “Arya” 2023
88 Tenuta Abbadia Vecchia 2023
88 Tenuta Aliotti “Conte Niccolo” 2023
87 I Cipressi 2022
87 Tenuta Santavenere - Casa Vinicola Triacca “Santavenere” 2021
87 Cantine Innocenti 2019
87 La Braccesca 2023
Categoria Vino Nobile di Montepulciano SELEZIONE
Nota/Produtor/Safra
95 De’ Ricci Selezione “Soraldo” 2021
95 Contucci Selezione “Mulinvecchio” 2021
93 Avignonesi Selezione “Poggetto di Sopra” 2022
93 Canneto Selezione “Casina di Doro” 2021
93 La Ciarliana Selezione “Vigna ’Scianello” 2021
92 Bindella - Tenuta Vallocaia “I Quadri” 2023
92 La Braccesca Selezione “Vigneto Santa Pia” 2022
90 Barbicaja Selezione “La Ripa” 2021
90 Villa S. Anna Selezione “Poldo” 2021
90 Fattoria del Cerro Selezione “Antica Chiusina” 2020
Categoria Vino Nobile di Montepulciano RISERVA
Nota/Produtor/Safra
95 Poderi Sanguineto I e II Riserva 2021
94 Crociani Riserva 2022
94 Tenuta di Gracciano della Seta Riserva 2022
93 Le Bèrne Riserva 2022
93 Palazzo Vecchio Riserva 2020
92 Bindella - Tenuta Vallocaia “Vallocaia” Riserva 2022
92 Boscarelli Riserva 2022
92 Canneto Riserva 2022
92 Lunadoro Quercione” Riserva 2022
92 Carpineto Riserva 2022
92 Il Molinaccio di Montepulciano Riserva “La Poiana” 2020
92 Lombardo Riserva 2020
91 I Cipressi Riserva 2020
90 Tenuta Abbadia Vecchia Riserva 2022
90 Marchesi Frescobaldi - Tenuta Calimaia Riserva 2022
90 Tenuta Poggio alla Sala Riserva 2021
90 Casale Daviddi Riserva 2020
90 Tenuta Valdipiatta Riserva 2020
89 Manvi “Ojas” Riserva 2022
88 Tenuta Fontenuova Riserva 2022
88 Antico Colle Riserva “Il Saggio” Riserva 2021
88 Vecchia Cantina di Montepulciano Riserva 2021