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Vinho & Humildade

Vinho & Humildade

03/12/2017

Marcelo Copello

Mundo do Vinho

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Por Marcelo Copello

“Um velho especialista em vinhos, ao ser atropelado por um trem, teve seus lábios umedecidos com vinho para que recobrasse os sentidos. ‘Pauillac, 1873’ murmurou ele antes de morrer”, Abrose Bierce.

No X Concurso Mundial de Sommeliers, realizado em setembro de 2000 no Canadá, o resultado da prova de reconhecimento de vinhos às cegas foi um desastre. Foram apresentados três vinhos: um Amarone della Valpolicella (Itália), um Rioja (Espanha) e um Tokaj seco (Hungria). Para especialistas, os dois primeiros foram considerados muito fáceis, e, mesmo assim, os cinco finalistas ao título de maior sommelier do mundo erraram todos os vinhos e seus palpites não chegaram nem perto da realidade. Conclusão, a frase mais associada à degustação às cegas é pura verdade: “Degustar às cegas é uma lição de humildade”.

Esta prática consiste em provar um vinho sem saber qual é. Basta embrulhar a garrafa para esconder o rótulo ou apresentar a bebida já na taça. Este tipo de degustação é usada em concursos de sommeliers, avaliações de vinhos em geral, e didaticamente. É um exercício intelectual de alto nível e pode ser também uma brincadeira educativa e divertida. Por outro lado, é o terror dos bebedores de rótulos, que julgam os vinhos por fama e preço, ficando assim totalmente perdidos.

Mas por que este tipo de prova é tão difícil? Em primeiro lugar pela variedade de vinhos que há no mundo, que é virtualmente infinita. Depois, pela dificuldade envolvida na degustação técnica de um vinho. Para ser levada ao nível de excelência, requer uma profunda reeducação dos sentidos.

Segundo o filósofo francês Michel Onfray, o ser humano, ao se tornar “sapiens”, passou a condenar tudo que o ligava à sua origem animal. O homem renunciou ao olfato e ao paladar em proveito da visão e da audição, sentidos que exaltam a distância. O ser “civilizado” vê e ouve. Olfato e paladar seriam sentidos ignóbeis. Aromas e sabores, primitivos. O ser humano possui cinco sentidos. Ao ignorar dois deles, estaria perdendo, grosso modo, 40% de seus meios de comunicação com o mundo.

Para quem gosta de pintura, não é difícil diferenciar um Salvador Dalí de um Renoir. Para quem gosta de música clássica, o mesmo se daria entre obras de Bach e Chopin, por exemplo. Por que não ser óbvia para todos, também, a diferença entre um Cabernet Sauvignon e um Pinot Noir? Qualquer adolescente distingue, ouvindo rock, em meio a vários instrumentos, os timbres da guitarra e do baixo. Por que então, dentre tantos aromas de um vinho, não reconhecer carvalho ou banana?

Costumo participar regularmente de degustações às cegas. Feitas com fins didáticos, consistem em primeiro avaliar completamente o vinho sem a preocupação de reconhecê-lo. Depois, procurar adivinhar, passo a passo, os seguintes quesitos: teor alcoólico, safra, quais os tipos de uva compõem o vinho, país e região de origem, e, por fim, adivinhar que vinho é. Os dois primeiros quesitos são relativamente fáceis, o terceiro e quarto são de dificuldade mediana. Já acertar o vinho é extremamente difícil. Esta atividade deve ser feita em grupo, de preferência com a orientação de um degustador mais experiente. A troca de informações entre os participantes também é importante. Aviso que, para ter sucesso no jogo, é preciso muita prática. Em outras palavras, já ter bebido muitos vinhos. E o mais importante, lembrar deles.

Em “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes, há uma passagem em que Sancho Pança, personagem notório por contar vantagem em tudo, diz que em sua família existiam grandes degustadores, tanto que numa ocasião dois deles, ao degustar o vinho de um determinado tonel, concordaram em tudo, menos em um sutil aroma que um dizia ser couro e outro dizia ser ferro. E continuaram bebendo e discutindo até esvaziarem o tonel e acharem lá no fundo um chaveirinho de couro.

Sem querer chegar a esta improvável precisão, pode-se aprender muito degustando vinhos às cegas. Sobretudo adquirir confiança em seus sentidos e a já citada humildade.

Marcelo Copello

Marcelo Copello


Marcelo Copello é um dos principais formadores de opinião da indústria do vinho no Brasil, com expressiva carreira internacional. Eleito “O MAIS INFLUENTE JORNALISTA DE VINHOS DO BRASIL” pela revista Meininger´s Wine Business International, e “Personalidade do Vinho” 2011 e 2013 pelo site Enoeventos.

Curador do RIO WINE AND FOOD FESTIVAL, e Publisher do Anuário Vinhos do Brasil, colaborador de diversos veículos de imprensa, colunista da revista Veja Rio online. Professor da FGV, apresentador de rádio e TV, jurado em concursos internacionais de vinho, como o International Wine Challenge (Londres). Copello tem 6 livros publicados, em português, espanhol e inglês, vencedor do prêmio Gourmand World Cookbook Award 2009 em Paris e indicado ao prêmio Jabuti.

Especialista no mercado e nos negócios do vinhos, fazendo palestras no Brasil e no exterior, em eventos como a London Wine Fair (Londres). Copello é hoje um dos palestrantes mais requisitados. Para saber mais sobre as palestras e serviços de Copello clique AQUI

  

Contato: contato@marcelocopello.com