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Vinho & Terror – a história da Filoxera

Vinho & Terror – a história da Filoxera

15/12/2018

Marcelo Copello

Mundo do Vinho

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Por Marcelo Copello

(crédito da imagem: Edward Linley Sambourne, cartunista inglês, 1844-1910)

“Vou fazer cair o dilúvio sobre a terra, uma inundação que exterminará todo ser que tenha sopro de vida debaixo do céu. Tudo que está sobre a terra morrerá.” Bíblia, Gênesis (6, 17).

Uma música de suspense toca e subitamente mortes misteriosas começam a acontecer, sem causas aparentes. O terror se espalha por todo o planeta. As mortes seguem, inexplicáveis, e pavorosas, causando devastações irrecuperáveis. Fala-se em cólera divina ou maldição demoníaca e religiosos são convocados para exorcizar o mal. Enquanto isso um cientista em seu laboratório, entre tubos de ensaio e microscópios, desvenda o mistério e salva o planeta!

A “sinopse” acima não é de uma obra de ficção, mas aconteceu de verdade (com exceção possivelmente da música de suspense). As mortes foram de videiras, o pavor foi bem real e alcançou os 4 cantos do planeta.

No universo de Baco, se a Filoxera fosse um filme certamente seria uma película de terror dos mais pavorosos. Mas porque falar de um fato ocorrido há um século e meio e do qual pouco de fala hoje? Porque o ataque da Filoxera foi simplesmente o capítulo mais marcante de toda a historia do vinho, que deixou cicatrizes profundas e ainda sentidas em todo o planeta. Além disso, porque esta praga ainda existe e ataca e, principalmente, porque foi sobre os destroços deste cataclisma que se ergueu o mundo do vinho como o conhecemos hoje. Assim, para melhor entender cada taça que degustamos é fundamental ler como aconteceu, passo a passo, a eno-catástrofe causada no século XIX por este um minúsculo ser.

Hoje, mais de um século depois do fenômeno é difícil acreditar que esta catástrofe, de proporções bíblicas, realmente tenha acontecido. A “ficha caiu” na primeira vez que visitei o Douro e me deparei com um “mortório”*. Desde então pude notar, em absolutamente todas as regiões vinícolas que visitei em vários continentes, que a Filoxera foi um divisor de águas em suas histórias. A historia do vinho se escreve “a.F.” e “d.F.”.

Mas o que é Filoxera? Como vive este inseto e como ataca a vinha? Como aconteceu passo a passo o eno-cataclisma causado por este um minúsculo ser no século XIX?

O que é a Filoxera?

O vocábulo filoxera é usado indistintamente para designar o inseto e a praga causada pela infestação deste em vinhedos. Phylloxera vastatrix,  Dactylosphaera vitifoliae, Viteus vitifolii ou simplesmente Filoxera é um tipo de pulgão, cujo tamanho varia de 0,3mm a 3mm de comprimento conforme a fase de seu complexo ciclo de vida.  A Filoxera ataca várias partes da videira em diversos momentos do ano.

A praga destroi as folhas da planta (que ficam amareladas prematuramente e caem), diminundo sua capacidade de fazer fotosíntese, mas o que geralmente mata a planta é o ataque do inseto à suas raizes. O pulgão suga às raizes e as “feridas” abertas sofrem a ação de fungos que acabam causando o apodrecimento das raízes – a verdadeira causa mortis da videira

A Vitis Vinifera e a Filoxera

A Vitis Vinifera é apenas uma das 60 espécies de uva no planeta, mas é a única que gera os vinhos finos. Todas às centenas de castas que conhecemos (Cabernet Sauvignon, Chardonnay etc), vêm de apenas uma espécie, o que tem seu lado ruim, já que a variedade genética é limitada aumentando a vulnerabilidade a doenças. A Vitis Vinifera é também conhecida como vinha européia, pois é a mais comum no continente europeu e teria vindo do oriente médio.

Em contraste a América do Norte possui uma grande diversidade de espécies autoctonas, de uvas não viníferas, que geram vinhos inferiores, que no Brasil designamos comumente de “vinhos de garrafão”.

Para entender como se deu o ataque desta praga em vinhedos de todo o mundo é importante saber que, primeiro, os danos provocados pela Filoxera nas vinhas dependem da susceptibilidade da espécie de videira aos ataque do pulgão. Segundo, a Filoxera existe a séculos na América do Norte, mas só chegou a Europa (e de lá para outros continentes), no séxuloXIX, como veremos adiante. Ou seja, enquanto a Vitis Vinifera nunca havia tido contato com o pulgão e era (e ainda é)  totalmente vulnerável, as espécies de uvas norte americanas co-evoluíram com o pulgão por séculos adquirindo grande resistência ao mesmo, tornando-se quase imunes.

A História de uma calamidade de proporções mundiais

O ataque da praga na Europa aconteceu de forma semelhante às epidemias levadas por navegadores espanhóis às suas colônias americanas. Povos aborígenes foram dizimados por vírus inofensivos aos europeus.

É fundamental entender o contexto em que se deu a Filoxera. No final do século XIX a economia européia era movida a vinho: nada menos que 80% da população da Itália vivia direta ou indiretamente do vinho. Na França cerca de 20% da receita do estado vinha do vinho e 30% das pessoas trabalhavam diretamente com vinho. Em Portugal o vinho do Porto era o item número 1 na balança comercial do país. 

Com a colonização da América os europeus tentaram cultivar a Vitis Vinifera no mundo novo para lá fazer vinhos. Todas as tentativas fracassaram, pois as vinhas morriam sem explicação. Não se sabiam as causas, mas provavelmente tratava-se da Filoxera e do Oídio (outra praga terrível que também viria a atacar a Europa). Tentaram então fazer vinho com as vinhas locais, mas o resultado era intragável. Os vinhos elaborados a partir de vinhas não viníferas possuem um típico gosto animal desagradável chamado de “foxy” (derivado da palavra “fox” – raposa). Como caminho natural para resolver este problema levaram mudas de vinhas americanas para a Europa para estudá-las, levando junto a praga...

Conta à história que um certo Monsieur Borty recebeu vinhas americanas, vindas Nova York, e cheio de boas intenções plantou-as em seu quintal, no Languedoc - sul da França, em 1862. Este marchant de vinhos, que hoje deve arder no inferno, notou que as demais vinhas de sua plantação (de Vitis Vinifera) começaram a morrer. Cerca de cinco anos depois todo o sul da França estava devastado. Em uma década a produção de vinhos da França havia caído a um terço e a calamidade já era global.

Em poucos anos a Filoxera atingiu toda a França, a última região a ser atacada foi Champagne, em 1890. O Douro foi a primeira região portuguesa com registros de Filoxera, em 1865. Em 1875 já havia Filoxera na Austrália, em 1880 na África do Sul e em 1885 a praga chegou ao norte da África, na Argélia e de lá atacaria vinhedos na Tunísia e Marrocos. O século XIX chegou ao fim com o mundo de Baco destroçado e a produção mundial seriamente comprometida.  Muitos vinhedos foram extintos para sempre, muitas castas desapareceram, dando lugar a outras. A geografia do vinho estava mudada para sempre. 

Pânico e tentativas curiosas

No início a morte das vinhas era um mistério e o pânico se instalou. Mesmo depois que um botânico de Montpelier, no sul da França, Jules Émile Planchon identificou o problema como sendo um inseto quase invisível a olho nú, não se sabia como conter a praga e métodos curiosos foram utilizados, alguns entrando para o folclore da bebida. Métodos curiosos foram utilizados para tentar conter a praga. Quais? Este será o tema de amanhã neste site!

Alguns viticultores começaram a plantar vinhas americanas, que não morriam, mas o vinho era resultante, como já sabemos, era de qualidade inferior.

A Cura

Em Montpelier desenvolveram um processo que nao chega a ser a cura propriamente dita da praga, mas um paliativo. Após muitas experiências descobriram em 1874, que ao enxertar a Vitis Vinifera sobre uma vinha americana era possível produzir vinhos finos em uma planta resistente a praga. Apenas a raiz da planta é da vinha americana e sobre ela cresce uma Vitis Vinifera.

No inicio havia muita resistência em usar este método, primeiro pois temia-se pela qualidade do vinho e depois havia grande dificuldade de conseguir vinhas americanas, já que era proibido importá-las. Este método foi e é “a cura” adotada em todo o mundo até hoje.

A situação atual, as exceções e casos raros

Não se descobriu até hoje um controle eficaz da praga em si. A Filoxera ainda existe e ataca. Os cientistas não sabem todos os pormenores das diferenças entre entre a Vitis Vinifera e as espécies americanas, para determinar com os motivos que levam uma resistir a praga e a outra não. Sabe-se que a praga não ataca em terrenos arenosos, motivo pelo qual alguns vinhedos resistiram, como por exemplo na região de Colares, em Portugal, próxima a Lisboa. O Chile é também um caso sempre citado, pois a Filoxera não chegou até lá. Os motivos são as proteções naturais, já que o Chile é uma “ilha” entre a Cordilheira dos Andes, o deserto de Atacama, a Antártida e o oceano Pacífico. Além disso atribui-se ao solo chileno rico em cobre e outros minerais, uma proteção natural. A Sicilia, com seus terrenos vulcânicos, de consistência muito fica, também abriga alguns vinhedos “virgens”, intocados pelo maligno inseto.  

As vinhas exertadas são chamadas de “cavalo”, já que uma vinha á plantada sobre a outra. As vinhas com raízes originais européias, sem o artifício da enxertia, são chamadas de vinhas de “pé franco”. Além dos citados acima existem espalhados pelo mundo alguns exemplos isolados de vinhedos “pé-franco”. É o caso do notório vinhedo “Nacional” da Quinta do Noval, no Douro, ou o a Herdade do Mouchão, no Alentejo. O fabuloso Thermantia 2005 é outro exemplo, elaborado na região espanhola de Toro a partir de um vinhedo préfiloxérico de 140 anos de idade.

Pode-se hoje perfeitamente plantar um vinhedo em “pé franco” em qualquer lugar do mundo, mas o risco de perdê-lo por um ataquie da Filoxera é grande. E mesmo as vinhas em “cavalo” podem ser atacadas se o porta enxerto (o tipo de vinha americana que fornecerá suas raízes a planta) não for bem escolhido. É bom lembrar que a Filoxera como todas espécies que habitam o planeta, pode evoluir e sofrer mutações naturais, e um porta exerto hoje resistente a praga pode no futuro não o ser mais. 

Na Califórnia nos anos 1960 e 1970 plantou-se muito usando o porta enxerto conhecido como “AXR#1”, que era resistente a Filoxera, mas que veio a sucumbir ante a um novo biotipo do pulgão como “biotipo B”, que dizimou muitos vinhedos, que tiveram que ser replantados com novo porta enxerto

*vinhedos do Douro atacados pela Filoxera final do século XIX e abandonados desde então, que podem ser vistos ainda hoje, espalhados pela região.

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Marcelo Copello

Marcelo Copello


Marcelo Copello é um dos principais formadores de opinião da indústria do vinho no Brasil, com expressiva carreira internacional. Eleito “O MAIS INFLUENTE JORNALISTA DE VINHOS DO BRASIL” pela revista Meininger´s Wine Business International, e “Personalidade do Vinho” 2011 e 2013 pelo site Enoeventos.

Curador do RIO WINE AND FOOD FESTIVAL, e Publisher do Anuário Vinhos do Brasil, colaborador de diversos veículos de imprensa, colunista da revista Veja Rio online. Professor da FGV, apresentador de rádio e TV, jurado em concursos internacionais de vinho, como o International Wine Challenge (Londres). Copello tem 6 livros publicados, em português, espanhol e inglês, vencedor do prêmio Gourmand World Cookbook Award 2009 em Paris e indicado ao prêmio Jabuti.

Especialista no mercado e nos negócios do vinhos, fazendo palestras no Brasil e no exterior, em eventos como a London Wine Fair (Londres). Copello é hoje um dos palestrantes mais requisitados. Para saber mais sobre as palestras e serviços de Copello clique AQUI

  

Contato: contato@marcelocopello.com