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Portugal – Vertical histórica 1963 a 2003

Portugal – Vertical histórica 1963 a 2003

31/03/2016

Marcelo Copello

Mundo do Vinho

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Por Marcelo Copello

Em uma prova em Lisboa tive a honra de provar 21 vinhos portugueses de safras entre 1963 e 2003. Participar de um evento como este equivale a ler um livro de história, cujos personagens são produtores, enólogos, regiões e as centenas de uvas, que compõem e riquíssima diversidade do vinho luso.

Os 21 capítulos desde livro começam em 1963 e percorrem 40 anos até 2003, mostrando a evolução de uma indústria que hoje está madura, modernizada, mas sem abandonar suas raízes (valorizando suas castas nativas ao invês das estrangeiras), e produzindo (não de hoje) vinhos de classe mundial.

A seguir vejamos as notas de prova, lembrando que quando provamos vinhos velhos, no mesmo vinho há muitas variações de uma garrafa para outra - logo cada garrafa é uma história.

Dão tinto 1963

Produtor/Região: Centro de Estutos Vitivinícolas do Dão, em Nelas

Uvas: Touriga Nacional plantadas em 1947

Pisado em lagares com engaços, com 13,8% de álcool. Ficou em tonéis usados não se sabe quanto tempo e provavelmente era inbebivel nos seus primeiros 20 anos de vida, pois ainda tem muita acidez e taninos. Já provei vários vinhos de Nelas dos anos 60, tintos e brancos é são surpreendentes, dada sua jovialidade. Este é marrom escuro, denso e complexo no nariz, com notas animais de couro, caldo de carne e com muitas especiarias. Paladar de bom corpo, concentrado, taninos rusticos ainda presentes, incrivel profundidade e complexidade. Muito longo, ainda viverá bem mais, embora já esteja bem etéreo. É um vinho cru, sem finesse, mas é um um mergulho profundo em sabores do Dão.

Nota: 95 pontos

Palácio do Bussaco 1964

Produtor/Região: Palácio do Bussaco, Dão-Bairrada

Uvas: Baga, Bastardo e Preto Mortágua (Touriga Nacional)

Este é o vinho do mítico e monumental hotel Palácio do Bussaco, localizado entre o Dão e a Bairrada. De cor clara e alaranjada. Totalmente etéreo, medicial, muito intenso no nariz, ervas aromáticas, couro, terra molhada, cêra. Paladar seco, magro, taninos secantes, um pouco curto, já mais para um aceto balsâmico do que vinho.  

Sem nota

Dão Porta dos Cavaleiros Reserva 1966 Magnum

Produtor/Região: Caves São João, Dão

Uvas: Jaen, Alfrocheiro, e possivelmente Baga.

Cor granada alaranjada entre claro e escuro, um pouco turvo. Aroma elegante de médio ataque, perfil semelhantes em perfil aos anteriores, bastante etéreo, cheio de especiarias. Paladar magro, macio e elegante, perfeitamente equilibrado, cai no final, delicioso.

Nota: 87 pontos

Dão Porta dos Cavaleiros Reserva 1975 Magnum

Produtor/Região: Caves São João, Dão

Uvas: Jaen, Alfrocheiro, e possivelmente Baga.

Mais cor que o 1966, granada entre claro e escuro, alaranjado. Intenso no nariz, mais exuberante que o 66, evoluido com notas de couro, animais, especiarias, musgo.

Paladar macio, pronto, longo, equilibrio, elegante, perfeito.

Nota: 91 pontos

Casa Ferreirinha Reserva Especial 1980

Produtor/Região: Casa Ferreirinha

Uvas: Tinta Roriz (70%), Touriga Francesa (10%) e 20% de outras

Granada entre claro e escurto, alaranjado. Nitidamente de uma região mais quente que os vinhos anteriores, com notas de chocolate amargo, ervas do douro, frutas secas. Paladar de bom corpo, taninos ainda presentes, boa acidez, bem vivo, perfil elegante, merecia ser Barca Velha.

Nota: 93 pontos

Quinta do Carmo Garrafeira 1987

Produtor/Região: Julio Bastos – Quinta do Carmo, Alentejo

Uvas: Alicante Bouschet (dominante), 5-10% Trincadeira, pequena quantidade de Moreto e Castelão

Um clássico e raro, feito pel enólogo João Portugal Ramos, com carvalho portugues novo, e algum carvalho do ano anterior. Cor marrom quase escuro, denso no nariz, com muitas especiarias doces, abriu-se muito ao logo da prova, exuberante, cheio de terra molhada e frutos secos. Paladar largo e macio, com taninos doces, presentes, acidez perfeita, cai um pouco no fim de boca.

Nota: 93 pontos

Tapada do Chaves 1988

Produtor/Região: Tapada do Chaves, Alentejo

Uvas: Trincadeira, Grand Noir, pequena quantidade de Catelão

Também feito pela craque João Portugal Ramos, a partir de de 80 anos (na época). Cor

marrom, um pouco turvo. Nariz expressivo, intenso, perfumado, complexo, com notas de couro, especiarias, carvalho portugues, com frescor balsâmico bem típico da região (Portalegre, norte do Alentejo). Paladar macio e com meio de boca gordo, vivo, com taninos e acidez perfeitos, está roque etéreo mas sem sinais de decadência. A Trincedeira mostra todo seu potencial neste vinho, uma dos melhores desta prova.

Nota: 96 pontos

Luis Pato Vinhas Velhas 1988

Produtor/Região: Luis Pato, Bairrada

Uvas: Baga

Granada alaranjado escuro. Nariz selvagem, vincado, quase amargo, com notas de chocolate amargo, fruta ácida, especairias, madeiras, cedro, sândalo, ervas. Paladar muito tânico, muito concentrado, taninos e acidez, ainda nervosos. No momento ainda muito agreste e difícil de beber. Eu estava sentado entre Luis Pato e João Paulo Martins. Segundo o promeiro este vinho só vai ficar pronto aos 25 anos de idade, para o segundo este caldo morrerá sabe-se lá quando, sem dos taninos se amansarem nunca.

Nota: 92 pontos

Duas Quintas Reserva 1994 Magnum

Produtor/Região: Ramos Pinto, Douro

Uvas: Touriga Nacionsl (2/3) e Tinta Barroca (1/3)

Granada alaranjado escuro. Aroma com notas de musgo, sottobosco, madeiras, baunilha, fruta doce, ervas, madeira nova aparece bastante no nariz e na boca. Paladar elegante e polido, taninos finos e doces, acidez moderada, cai um pouco no fim de boca. Em estilo mais moderno, já decaindo, não é tão longevo.

Nota: 87 pontos

Periquita Clássico 1994

Produtor/Região: José Maria da Fonseca, Palmela

Uvas: Castelão

Evoluido na cor, alaranjado, entre claro e escuro. Pisado a péo em lagares, com 30% de engaços. Nariz intenso, animal, couro, flores maceradas. Paladar de bom corpo, seco, taninos ainda presentes, boa acidez, em um ótimo momento agora, ainda bem vivom mas já pronto. Um vinho rústico, em estilo tradicional, encantador por sua autenticidade.

Nota: 90 pontos

Quinta das Bágeiras Garrafeira 1995

Produtor/Região: Mário Sergio Nuno, Bairrada

Uvas: Baga

Feiro com vinhas velhas, pisado em lagares com 100% de engaços, amadurecido em carvalho usado. Cor granada escuro. Aroma elegantes de medio ataque, misturando finesse denotas florais com notas animais um pouco mais rústicas, com notas de resinas. Paladar sério, seco,com taninos firmes, presentes, boa acidez. Com classe e potencial de muitos anos mais de guarda.

Nota: 93 pontos

Quinta dos Roques Reserva 1997

Produtor/Região: Quinta do Roques, Dão

Uvas: Touriga Nacional (40%), Alfrocheiro (20%), Jaen (20%), Tinta Roriz (15%) e Tinto Cão

Com aromas off, garrafa defeituosa.

Sem nota

Marquês de Borba Reserva 1997

Produtor/Região: João Portugal Ramos, Alentejo

Uvas: Trincadeira, Cabernet Sauvignon, Alicante Bouschet e Aragonês

Granada alaranjado escuro. Aroma de madeira nova, frutas doces, musgo, sottobosco, azeitonas verdes. Paladar encorpado, taninos ainda presentes, largo, longo. Em estilo moderno,  pronto ou para mais uns 5-10 anos de guarda.

Nota: 92 pontos

Pêra Manca 1998

Produtor/Região: Fundação Eugénio de Almeida, Alentejo

Uvas: Trincadeira (70%) e Aragonês

Cor marrom um pouco turvo. Aroma expressivo, com muitas ervas, chocolate, musgo,

cêra, cedro, caramelo toffe. Paladar encorpado e macio, com profundidade e complexidade,  taninos prontos, finos, longo e delicioso, para beber já ou em até 5 anos.

Nota: 94 pontos

Mouchão 1998

Produtor/Região: Herdade do Mouchão, Alentejo

Uvas: Alicante Bouschet

Parece muito mais novo que o Pêra-Manca. Granada muito escuro. É concentrado e denso,

quase amargo, com taninos volumosos, longo, largo, um monstro! Não tem a elegância do Pêra-Manca, mas tem muito mais impacto e presença.

Nota: 94 pontos

Barca Velha 1999

Produtor/Região: Casa Ferreirinha (Sogrape), Douro

Uvas:  Tinta Roriz (30%), Touriga Nacional (20%), Touriga Franca  (45%),e Tinto Cão (5%)

Cor escura, ainda con tons de ruby e reflexos granada. Tem um pouco da elegancia do Pera Manca e da força do Mouchão. Não tão expressivo, parece um pouco fechado, complexo e elegante, com notas de toffe, balsamicos, frutas maduras, tabaco, couro, especiarias. Paladar concentrado, taninos ainda bem presentes, muito finos, ótima acidez, longo e muito bem proporcionado. Um vinho muito polido, como expressão do Douro tradicional este vinho é a perfeição e ainda está jovem, long de seu potencial.

Nota: 96 pontos

Quinta da Falorca Garrafeira 2000

Produtor/Região: Quinta do Vale das Escadinhas, Dão

Uvas: Touriga Nacional e Tinta Roriz

Granada escuro, intenso, complexo, floral, com notas de rosas, chás, frutas vermelhas. Paladar de medio corpo, elegante, delgado, macio, taninos finos e doces. Expressivo e delicioso. A quintesência da Touriga Nacional no Dão.

Nota: 93 pontos

Vinha da Ponte 2000

Produtor/Região: Quinta do Crasto, Douro

Uvas: 37 uvas diferentes, principalmente Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Franca, Tinta Amarela, Malvassia Preta, tinta da Barca, Conifesto e Moreto.

Rubi-granada escuro. Aroma finíssimo e rico, com frutas negras doces, ervas do Douro e bastante mineral. Paladar de bom corpo, muito bem proporcionado, elegante, taninos doces e delicados ainda presentes, equilibradíssimo. Um vinho ao mesmo tempo moderno, com a alma do Douro e com grande finesse, um dos melhores da prova.

Nota: 97 pontos

Esporão Garrafeira 2001

Produtor/Região: Herdade do Esporão, Alentejo

Uvas: Alicante Bouschet e Aragonês

Possivelmente uma má garrafa, pois, apesar de não tem nenhum defeito aparente, está inexpressivo e  amargo no fim de boca.

Sem nota

Batuta 2003

Produtor/Região: Niepoort, Douro

Uvas: Tinta Roriz, Touriga Franca, Tinta Amarela e Touriga Nacional

Rubi-granada escuro. Aroma finissimo, quente, com notas frutadas, minerais, de ervas aromaticas e mentol. Paladar encorpado, com taninos doces ainda presentes, muito equilibrado e elegante, com finesse. Foi prejudicado pelo serviço, pois foi servido gelado.

Nota: 92 pontos

Dona Maria Reserva 2003 Magnum

Produtor/Região: Vinhos Dona Maria (Julio Bastos), Alentejo

Uvas: Alicante Bouxchet (50%), Aragonês, Cabernet Sauvignon e Syrah

Granada escuro. Aroma falando alto, muito expressivo, com notas de geléias, caramelo, terra molhada, eucalipto, com fundo mineral. Paladar encorpado, largo e macio, longo, com presença marcante no nariz e boca.

Nota: 92 pontos

Marcelo Copello

Marcelo Copello


Marcelo Copello é um dos principais formadores de opinião da indústria do vinho no Brasil, com expressiva carreira internacional. Eleito “O MAIS INFLUENTE JORNALISTA DE VINHOS DO BRASIL” pela revista Meininger´s Wine Business International, e “Personalidade do Vinho” 2011 e 2013 pelo site Enoeventos.

Curador do RIO WINE AND FOOD FESTIVAL, e Publisher do Anuário Vinhos do Brasil, colaborador de diversos veículos de imprensa, colunista da revista Veja Rio online. Professor da FGV, apresentador de rádio e TV, jurado em concursos internacionais de vinho, como o International Wine Challenge (Londres). Copello tem 6 livros publicados, em português, espanhol e inglês, vencedor do prêmio Gourmand World Cookbook Award 2009 em Paris e indicado ao prêmio Jabuti.

Especialista no mercado e nos negócios do vinhos, fazendo palestras no Brasil e no exterior, em eventos como a London Wine Fair (Londres). Copello é hoje um dos palestrantes mais requisitados. Para saber mais sobre as palestras e serviços de Copello clique AQUI

  

Contato: contato@marcelocopello.com