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O VINHO em palavras: a história dos livros sobre VINHO

O VINHO em palavras: a história dos livros sobre VINHO

19/11/2017

Marcelo Copello

Mundo do Vinho

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Por Marcelo Copello (trecho do livro “Vinho & Algo Mais”, Editora Record)

“Não existe nenhuma concepção na mente do Homem que não tenha sido antes, totalmente ou em partes, gerada nos órgão dos sentidos”, Thomas Hobbes (1588-1679).

Quando nos cursos de iniciação que ministro peço à um neófito que descreva um determinado vinho, noto que a dificuldade de expressão é imensa. Por que seria esta uma tarefa árdua? Por que sentimos a necessidade de transformar o líquido em palavras?

A aspereza da tarefa é compreensível. Segundo Lev Vygotsky, gênio russo da psicologia, pensamento e linguagem têm origens diferentes, ao nascermos nosso pensamento não é verbal e nossa linguagem não é intelectual. O pensamento e a palavra não se encontram relacionados por vínculos primários, somente aos dois anos de idade se encontram. A partir do momento que a criança descobre que tudo tem um nome, cada novo objeto que surge representa um problema que ela resolve batizando-o. Quando aprendemos a degustar, em certo sentido, voltamos à infância, perguntando a nossos pais qual o nome de determinado objeto ou, como devemos nomear determinado aroma.

Quando provamos o néctar dionisíaco, mergulhamos em um mundo só nosso. Penetrar neste mundo significa embeber-se de cores, aromas, sabores e texturas – percebê-los através de nossos sentidos. As palavras vêm depois. Primeiro nossa mente deduz, da experiência como um todo, generalidades que podem ser conceitualizadas e rotuladas. Nossos sentidos traduzem estas realidades exteriores em fenômenos interiores e comunicáveis. É inerente ao ser humano se expressar, dizer o que sente. Comunicar-se é comungar com o próximo, é partilhar, uma carência básica de nossa espécie.

Não devemos esquecer do colossal poder da palavra, sobretudo da palavra escrita. Em nossa cultura tudo que está escrito, impresso, tem um caráter de sagrado, de verdade, de documento, de lei. Escrever significa concretizar os pensamentos, a palavra falada, fugidia, deve ser perpetuada pela escrita. Para o homem arcaico, a palavra era considerada como portadora de autoridade divina. Segundo a Bíblia, o verbo é a palavra de Deus e, às vezes, o próprio Deus. Na concepção dos antigos egípcios, a palavra do deus primordial Ptah criou o mundo, e os hieroglifos eram “palavras divinas”. Na Índia o brahman (palavra santa) indica a plenitude do ser divino. Na filosofia grega, o logos (palavra, razão) possui poder superior ao dos deuses. Encontra-se uma verdadeira mística das letras no alfabeto grego, na Cabala e no islamismo. Até em nossa cultura popular, como no jogo do bicho, “vale o que está escrito”.

Sob um outro prisma, palavra significa abstração. Para falar precisamos representar em nossa mente um objeto. A palavra “maçã” faz com a imagem de uma maçã surja em nossa mente. Abstrair é criar mentalmente uma realidade, o que é a base de todas as artes.

Além disso, quando nomeamos um determinado aroma, por exemplo, automaticamente gravamos esta relação “sensação-nome” em nosso córtex cerebral. Ao provar no futuro outro vinho com o mesmo aroma, será muito mais fácil resgatar em nossa memória esta fragrância, pois ela terá um rótulo. Didaticamente, para o aprendizado da arte de degustar, é fundamental dizer o que sentimos.

Esta necessidade de colocar a bebida em palavras é ainda maior devido ao seu caráter de arte efêmera. Uma bela fotografia pode ser mostrada a quantas pessoas quisermos, sempre que tivermos vontade. O vinho vive apenas na memória dos que o provaram, cada garrafa é única e uma vez aberta se esgota rapidamente. Para transmitir a experiência é preciso verbalizar. 

O que têm em comum Goethe, Platão, Shakespearre, Milton, Alexandre Dumas, James Joyce,  Hamingway, Eça de Queiroz, Homero, Kháyyám, Cervantes, Mário Quintana, Herman Melville, Charles Baudelaire, Neruda, Byron e Eurípedes? Todos estes grandes escritores e muitos outros, diante do estado de exaltação do espírito e do intelecto provocado pelo vinho, sentiram a necessidade de se expressar verbalmente. O vinho proporciona um terreno fértil para a literatura, não apenas por seu teor cultural, mas também por seu caráter de metáfora líquida. Para descrevê-los falamos de frutas, flores, animais etc que não estão lá. Em nossa mente multiplicam-se imagens, como hieroglifos ou cartas de um jogo de memória.

(leia também: Londres, dicas de restaurantes que valorizam o vinho)

Desde que o vinho foi mencionado no escrito mais antigo que se tem notícia, a saga do rei babilônico Gilgamesh, de 1800 aC, o nobre fermentado foi presença recorrente na literatura ocidental. O nobre fermentado inspirou tanto obras de ficção quanto em textos filosóficos, médicos e históricos, sem mencionar nas publicações exclusivamente dedicadas ao vinho. A literatura enológica, em seus primórdios, estava mais voltada para os efeitos do vinho (a embriaguez ou seus benefícios à saúde) do que para qualidades intrínsecas. Até século XVIII, os livros sobre o fermentado versavam sobre o plantio da vinha, sobre os usos medicinais do fermentado e sobre sua elaboração, raramente dedicando-se a apreciação da bebida.

Apenas em 1793 o termo “provador” foi designado pelos lexicógrafos franceses como “aquele cujo ofício é provar vinhos”, e a palavra “degustar” só surgiu nos textos franceses em 1813. O primeiro livro a tentar analisar a ciência da degustação foi provavelmente “The History of Ancient and Modern Wines” escrito em 1824 pelo Dr. Alexander Henderson. A obra “Études sur le vin” de Louis Pasteur, publicada em 1866, foi de grande importância. Esta publicação eminentemente científica, ao explicar a fermentação alcoólica e o papel do oxigênio na degradação dos vinhos, suscitou uma vontade maior de compreender a bebida. O século XIX viu, então, o florescimento de uma literatura voltada para as qualidades sensoriais do vinho.

No século XX, o crescimento da indústria do vinho caminhou lado a lado com o crescimento de sua cultura e de sua literatura. Após a Segunda Guerra Mundial e mais acentuadamente a partir dos anos 70, o vinho tornou-se a bebida da classe média e as publicações especializadas viveram um verdadeiro boom, não por acaso em 1976 foi criada a revista Wine Spectator, por exemplo. A segunda metade do século XX viu surgir uma nova e brilhante geração de wine-writers, cujos livros povoam as livrarias de todo o mundo, como o francês Emile Paynaud; os ingleses Michael Broadbent, Hugh Johnson, Jancis Robinson e Oz Clark; o americano Robert Parker; o italiano Luigi Veronelli; o espanhol José Peñin; os portugueses João Paulo Martins e João Afonso, e os australianos James Halliday e John Beeston. No Brasil, o interesse intensificou-se de meados dos anos 90 em diante. Revistas especializadas foram criadas, jornais de circulação nacional ganharam colunas enológicas, emissoras de TV passaram a exibir programas especializados na bebida.

Nunca tantas letras foram vertidas em nome de Baco, o que nos dá a certeza de que não basta degustar, é preciso também transformar o líquido em palavras, e assim compartilhar a experiência propiciada por cada gole de nossa bebida predileta.

Marcelo Copello

Marcelo Copello


Marcelo Copello é um dos principais formadores de opinião da indústria do vinho no Brasil, com expressiva carreira internacional. Eleito “O MAIS INFLUENTE JORNALISTA DE VINHOS DO BRASIL” pela revista Meininger´s Wine Business International, e “Personalidade do Vinho” 2011 e 2013 pelo site Enoeventos.

Curador do RIO WINE AND FOOD FESTIVAL, e Publisher do Anuário Vinhos do Brasil, colaborador de diversos veículos de imprensa, colunista da revista Veja Rio online. Professor da FGV, apresentador de rádio e TV, jurado em concursos internacionais de vinho, como o International Wine Challenge (Londres). Copello tem 6 livros publicados, em português, espanhol e inglês, vencedor do prêmio Gourmand World Cookbook Award 2009 em Paris e indicado ao prêmio Jabuti.

Especialista no mercado e nos negócios do vinhos, fazendo palestras no Brasil e no exterior, em eventos como a London Wine Fair (Londres). Copello é hoje um dos palestrantes mais requisitados. Para saber mais sobre as palestras e serviços de Copello clique AQUI

  

Contato: contato@marcelocopello.com