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O Priorato reconhece seus Grand Crus

O Priorato reconhece seus Grand Crus

27/05/2019

Marcelo Copello

Mundo do Vinho

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Por Marcelo Copello

Mais de uma vez, ao entrevistar enólogos pelo mundo, quando perguntei “em que outra região você gostaria de fazer vinhos”, a resposta foi: Priorato. Os vinhos que aqui produzidos são cultuados por especialistas de todo o mundo. Tive a sorte de estar lá semana passada, ver com meus próprios olhos e provar in loco com minhas próprias papilas. Segue meu testemunho.

HISTORIA

Localizada na região da Catalunha (cuja capital é Barcelona) no leste da Espanha, o Priorato é uma região muito antiga, cuja produção de vinhos remonta ao século XII, quando monges da ordem dos  Cartuxos fundaram o mosteiro de Escaladei, no ano 1194. No final do século XIX a phylloxera devastou o Priorato, causado êxodo da população e deixando boa parte dos vinhedos abandonados por cerca de meio século. Em 1954, a Denominação de Origem Priorat (Priorato em catalão) foi criada, a produção aos poucos reativada, inicialmente com foco em vinho a granel de cooperativas e não em qualidade.

O renascimento teria início nos anos 1980, com a chegada do enólogo francês René Barbier, que comprou vinhedos acreditando no potencial da região e trazendo junto um grupo de enólogos, Carles Pestrana, Daphne Glorian, Josep Lluis Peres e Alvaro Palacios. Os primeiros vinhos de ponta do Priorato foram Clos MOgador (de Barbier), Finca Dofi (de Palacios), Clos Erasmus, Clos Martinet e Clos de l'Obac.

Em 1993 Palacios produziu seu vinho L’Eremita que viria a chamar a atenção da crítica internacional catapultando a região para a glória. Em 1998 haviam lá 24 vinícolas, hoje são 109. Não pensem contudo que o Priorato inchou e se banalizou. São apenas 2 mil hectares de vinhedos, com 575 produtores de uvas. Somente 9 mil pessoas vivem em toda a região e as produções são mínimas.

A NOVA CLASSIFICAÇÃO DOS VINHEDOS

Em um evento no histórico mosteiro La Cartoixa d’Escaladei, o presidente do Consejo Regulador da Denominacao Priorat, Salustià Álvarez, anunciou uma nova classificação dos vinhedos da região.

Este projeto, pioneiro na Espanha, estudou 2140 parcelas de vinhedos, reconheceu e classificou 459 locais, em 5 níveis de qualidade/tipicidade:

DOQ Priorat

Vinhos que refletem a personalidade genérica da região.

Rendimento máximo: 6.000 Kg/ha

Vins de Vila

O equivalente na Borgonha a “Village”, trazem a identidade de uma aldeia específica. O rótulo trará o nome da vila.

Rendimento máximo: 5.000 Kg/ha

Vinhedos: 90% com mínimo de 10 anos, e 10% com mínimo de 5 anos

Castas: 60% de Garnacha e Cariñena

Vins de Paratge

Mostram uma essência ainda mais pura, um microclima, na Borgonha seria um climat. O rótulo trará o nome da localidade.

Rendimento máximo: 4.000 Kg/ha

Vinhedos: 90% com mínimo de 15 anos, e 10% com mínimo de 5 anos

Castas: 60% de Garnacha e Cariñena

Vinya Classificada

Vinhedo único de alta qualidade. O equivalente a um Premier Cru na Borgonha. O rótulo trará o nome do vinhedo.

Rendimento máximo: 4.000 Kg/ha

Vinhedos: 80% com mínimo de 20 anos, e 20% com mínimo de 5 anos

Castas: 60% de Garnacha e Cariñena

Gran Vinya Classificada

Vinhedo único de alta qualidade, representando a nata da região. O equivalente a um Grand Cru na Borgonha. O rótulo trará o nome do vinhedo.

Rendimento máximo: 3.000 Kg/ha

Vinhedos: 80% com mínimo de 35 anos, 10% com mínimo de 20 anos e 10% com mínimo de 10 anos

Castas: 90% de Garnacha e Cariñena

Vinhas Velhas

Uma classificação em paralelo. Para trazer no rótulo “Velles Vinyes” (vinhas velhas), é necessário que 70% dos vinhedos tenham sido plantados antes de 1945 e 30% com mínimo de 15 anos. As castas devem ser mínimo de 80%  Garnacha e Cariñena

Segundo Salustià Álvarez esta classificação apenas reconhece o que muitas vinícolas já praticam na região há quase três décadas. Segundo ele, 80 rótulos já usam estes nomes.

O TERROIR DO PRIORATO

Priorato é sobre o solo, relevo-altitude e maritimidade-continentalidade.

Os SOLOS são pobres de matéria orgânica, variados em sua composição, normalmente pedregosa. Em verdade há uma grande variedade de solos na região, sendo o mais típico e valorizado a Llicorella, espécie de ardósia de cor que vai do negro azulado ao vermelho, às vezes dourado ou cor de ferrugem. Rendimentos são baixíssimos, a média da região cerca de 3.000 kg/ha, mas em uma vinha muito velha pode ser de menos de 1kg por planta.

O RELEVO também, é sigular. A região é montanhosa, com vinhedos com ALTITUDE entre 200m e 800m. O que chama à atenção no entanto é a inclunação de muitos dos vinhedos. Há aqui cerca de 600 hectares com mais de 35% de inclunação, e incríveis 23ha com inclinação de mãos de 90%! Imaginei a dificuldade na hora de colher as uvas!

O MAR e a MONTANHA são influências importantes aqui. Por um lado os vinhedos estão bem próximos ao mar (cerca de 15-30km), que traz a brisa quente do mediterrâneo. Por outro lado a região é protegida por montanhas, proporcionando uma diferença de temperatura dia/noite alta (podendo atingir 30oC) típica de climas continentais.

Os índices aqui são de enlouquecer os enólogos, pois a a acidez natural vai lá em cima, mas com maturidade fenólica lá em cima também, somados a uma mineralidade explícita (acredite você ou não em mineralidade), dada pelo solo, uma conjunção rara.

AS CASTAS DO PRIORATO

Os 2 mil hectares de vinhedos do Priorato são dominados por suas castas, as autóctones Garnacha e Cariñena

41% Garnacha tinta

24% Cariñena

10% Syrah

10% Cabernet Sauvignon

6% Merlot

5% Garnacha blanca

1% Macabeu

Outras castas plantadas em menor quantidade: Cabernet Franc, Tempranillo

Pedro Ximénez, Viognier e Muscat

ESTILO GERAL DOS VINHOS

Os melhores e mais conhecidos vinhos da região sõa tintos encorpados, com taninos volumosos, finos, acidez natural alta e muito minerais. Para que se expressem em seu melhor normalmente precisa de muitos anos em garrafa (mínimo 10 anos) e uma longa decantação (recomendo mínimo 3 horas). Os brancos do Priorato não são muitos mas podem chegar a excelência, com complexidade, estrutura e mineralidade, para boa guarda.

A Grenache continua a rainha, mas a princesa Cariñena me surpreeas provas, com vinho nem sempre rústicos como esta casta sugere, mas sempre densos, profundos e complexos.

VINHOS PROVADOS

As provas oficiais do evento aconteceram no mosteiro La Cartoixa d’Escalarei, em uma sala preparada para cada produtor apresentar seu vinho para a nata da crítica mundial, cerca de 60 profissionais top de todo mundo. Provei um total de uns 200 vinhos nesta viagem (dezenas foram na informalidade, em almoços e jantares) e cerca de 70 em provas mais formais onde pude tomar minhas notas.

Vejam aqui meus prediletos:

BRANCOS

NOTA – VINHO – SAFRA - PRODUTOR

94 - Mas d'en Compte 2015, Celler Cal Pla

94 - Nelin 2016, Clos Mogador

93 - Primera Vinya Les Brugueres 2017, Les Brugueres

90 - Abracadabra 2015, Trossos del Priorat

89 - Artigas Blanc 2013, Bodegas Mas Alta

88 - Gran Clos Blanc 2017, Gran Clos

88 - Roureda llicorella Vi de Vila Pedro Ximénez 2017, Unió Origen

TINTOS

NOTA – VINHO – SAFRA - PRODUTOR

98 - Clos Mogador 2016, Clos Mogador

97 - L'Eremita 2014, Alvaro Palacios

97 - 1902 2015, Max Doix

96 - Perint 1194 2016, Perinet

96 - Doix 2015, Max Doix

96 - Finca La Planeta 2013, Celler Pasanau

96 - Arbossar 2016, Terroir Al Límit

95 - Perinet Mas Vell 2016, Perinet

95 - Mas Sinén Coster 2013, Burgos Porta

95 - Planots 2012, Celler Cal Pla

95 - Tros de Clos 2016, Portal del Priorat

95 - Les Aubaguetes 2016, Alvaro Palacios

95 - Clos Fontà 2014, Mas d'en Gil

95 - La Basseta 2016, Bodegas Mas Alta

95 - GV5 2013, Gratavinum

94 - Masdeu 2014, Cellers de Scala Dei

94 - Negre de Negres 2017, Portal del Priorat

94 - Gran Clos Negre 2011, Gran Clos

94 - Clos Abella 2013, Marco Abella

94 - Dits del Terra 2016, Terroir Al Límit

94 - Destí Sol Garnatxa 2016, Mervm Priorati

94 - Mas de la Rosa 2016, Torres

93 - Mas de la Rosa 2016, Celler Vall Llach

93 - Vi de Vila dela Vilella Baixa 2015, Vinícola del Priorat

93 - Huellas 2014, Forer Massard

93 - Inici 2016, Mervm Priorati

93 - Gran Cruor 2011, Casa Gran del Siurana

93 - Clos Alzina 2016, Costers del Priorat

92 - Cartoixa 2016, Cellers de Scala Dei

92 - La Vinya de Coster 2011, Mas la Mola

92 - Terroir X La Viña Vieja 2016, Alvarez Duran Priorat

92 - Porrera  2016, Alvarez Duran Priorat

92 - Coma Vella 2014, Mas d'en Gil

92 - Los Torrents 2014, Celler Pasanau

92 - Roca Grisa 2016, Marco Abella

92 - Eda 2013, Forer Massard

92 - Reiyel 2017, Las Nubes

92 - Gran Predicat Negre 2016, Grifoll Declara

91 - La costa del riu 2016, Meritxell Pallejà

91 - Lo Món 2013, Trossos del Priorat

91 - Perpetual 2016, Torres

90 - Vi d'Altura 2016, Mas la Mola

90 - Porrera Vi de Vila 2016, Celler Vall Llach

90 - Vi de Vila dela Vilella Alta 2016, Vinícola del Priorat

90 - Hodgkinson Mas del Habanero 2015, Peter Hodgkinson

90 - Caliel 2017, Las Nubes

90 - Joan Giné Blanc 2018, Buil i Giné

90 - Silvestris 2017, Gratavinum

90 - Cruor 2015, Casa Gran del Siurana

89 - Mas Sinén Negre 2015, Burgos Porta

89 - Magran 2016, Meritxell Pallejà

89 - Balcons 2016, Pinord Mas Blanc

89 - Joam Giné Negre 2014, Buil i Giné

89 - Clos Figueres 2016, Clos Figueras

89 - Clos Galena, Domini dela Cartoixa/Clos Galena

89 - Predicat Negre 2016, Grifoll Declara

88 - Iura Blanc 2018, Atavus

87 - Voltons 2015, Les Brugueres

87 - Font de la Figuera Blanc 2018, Clos Figueras

86 - Formiga de Vellut 2016, Domini dela Cartoixa/Clos Galena
 

ENTREVISTA COM ALVARO PALACIOS

Conversei com exclusividade com produtor mais famoso da região, ALVARO PALACIOS, eleito Man of the Year 2015 pela revista inglesa Decanter. Ele falou um pouco sobre a região e sobre a nova classificação dos vinhedos locais.

ENTREVISTA COM MIGUEL TORRES Jr.

Bom dia pessoal, hoje visitei fantásticos vinhedos no PRIORATO com Miguel Torres Jr, da Bodegas Torres. O primeiro deles, o Mas de la Rosa, que pela nova classificação do Priorato, lançada esta semana, é um GRAN VINYA CLASSIFICADA (equivale a um Grand Cru), foi plantado em 1939. Provei o vinho é sensacional, elegantérrimo.

Marcelo Copello

Marcelo Copello


Marcelo Copello é um dos principais formadores de opinião da indústria do vinho no Brasil, com expressiva carreira internacional. Eleito “O MAIS INFLUENTE JORNALISTA DE VINHOS DO BRASIL” pela revista Meininger´s Wine Business International, e “Personalidade do Vinho” 2011 e 2013 pelo site Enoeventos.

Curador do RIO WINE AND FOOD FESTIVAL, e Publisher do Anuário Vinhos do Brasil, colaborador de diversos veículos de imprensa, colunista da revista Veja Rio online. Professor da FGV, apresentador de rádio e TV, jurado em concursos internacionais de vinho, como o International Wine Challenge (Londres). Copello tem 6 livros publicados, em português, espanhol e inglês, vencedor do prêmio Gourmand World Cookbook Award 2009 em Paris e indicado ao prêmio Jabuti.

Especialista no mercado e nos negócios do vinhos, fazendo palestras no Brasil e no exterior, em eventos como a London Wine Fair (Londres). Copello é hoje um dos palestrantes mais requisitados. Para saber mais sobre as palestras e serviços de Copello clique AQUI

  

Contato: contato@marcelocopello.com