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LE MONTRACHET, vertical DRC x Leflaive

LE MONTRACHET, vertical DRC x Leflaive

19/11/2018

Marcelo Copello

Mundo do Vinho

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Por Marcelo Copello

Dizem que no fim do arco-íris há um pote de ouro. Nunca precisei seguir o arco-íris para saber onde está o tal pote. O lugar encantado fica na Borgonha e é um vinhedo chamado Le Montrachet. Saber onde é, é fácil, pagar por uma garrafa de Le Montrachet nem tanto, pois pode custar mais que o tal pote de ouro.

Encontrei uma mina destes potes de ouro e teve o privilégio de participar de um raríssimo um embate para decidir qual o melhor produtor de Montrachet.  Agradecendo sempre a quem me proporcionou esta oportunidade e comigo compartilhou estas raridades, segue o relato desta prova, mas antes um pouco de informação.

O vinhedo Montrachet

Montrachet é um pequeno vinhedo Grand Cru, de apenas 8 hectares, na Côte de Beaune, coração da Borgonha. Este vinhedo é tão famoso que outros vinhedos ao redor tomam seu nome emprestado, como o Chevalier-Montrachet, Bâtar-Montrachet, Bienvenues Bâtar-Montrachet, Chassagne-Montrachet e Puligny-Montrachet.

Montrachet é uma suave colina, com 6-10% de inclunação e terroir único, com solo pobre com bastante calcário, rico em dióxido de ferro, com profundidadee de 0,5 a 1,5 metros, altitude de 255-270 metros, voltada à leste e com ótima exposição, protegida dos ventos frios pelo monte Rachet.

O vinho Montrachet

Por sua fama e raridade todo Montrachet é sempre caríssimo, mas alguns decepcionam. O motivo é a fragmentação do vinhedo, este minúsculo pedaço de terra tem 15 donos principais, nem todos cuidadosos. Contudo, os Motrachets dos melhores produtores, nos melhores anos, são simplesmente os maiores vinhos brancos do mundo - os mais ricos, coesos e perfeitos, unindo concentração-integração, profundidade e finesse.

Os melhores e mais confiáveis produtores de Montrachet são Comtes de Lafon, Ramonet, Domaine Leflaive (DL) e a mítica Domaine de la Romanée-Conti (DRC), com vantagem para os dois últimas, que foram os colocados à prova.

O Montrachet Domaine Lefraive

Anna-Claude Leflaive é uma personagem emblemática da Borgonha. Desde que assumiu o comando da empresa da família em 1994, revoluciuonou-a,  introduzindo praticas orgânicas e bodinamicas, até que em 1997 todo o domaine foi convertido em biodinamico. Hoje a menção do nome Leflaive faz suspirar aos amantes dos borgonhas brancos, nos quais me incluo em alto e bom suspiro (não confundir com os vinhos de seu irmão Olivier Leflaive, bons, mas alguns degraus abaixo). A DL possui apenas microscópicos 0,08 hectares em Montrachet (plantados em 1960), o que gera uma produção de apenas uma barrica ao ano (uma barrica especial, feita por encomenda com 310 litros, para conter toda a colheita). O vinho fermenta na barrica sempre nova, Allier, onde fica 12 meses e depois mais 6 meses na barrica do ano anterior. Os Montrachets da DL são raríssimos e alcançam por vezes preços maiores do que os de seu rival, a DRC. São vinhos que no mercado internacional rondam a casa dos 5-10 mil dólares cada garrafa.

O Montrachet Domaine de la Romanée-Conti

Sobre a mítica DRC (nada menos que o produtor de vinho de maior prestígio do planeta), já falamos bastante nas edições 6 e 7 desta revista. O Montrachet é o único branco desta domaine, que só começou a produzí-lo na safra de 1964 (lançado em 1965). Seus 0,67 hectares produzem apenas cerca 3 mil garrafas ao ano de vinho, que fermenta em barricas novas onde permanece por cerca de 14 meses.

Em uma comparação de estilos o Montrachet DL é mais potente, muito mineral, com madeira mais aparente, mais amanteigado e mais gordo. O DRC é mais longevo e fechado na juventude, poderoso e compacto, mais masculino e austero, integrado e elegante, com aromas mais exóticos e mineralidade e madeira menos evidentes. Ambos são espetaculares, complexos e profundos, e precisam ao menos 10 anos de garrafa para começar a mostrar seu potencial.

O tira teima

Provamos totalmente as cegas, sem saber produtores nem safras, 10 taças embaralhadas contendo 5 grandes safras de cada um, todas com ao menos 10 anos - 1991, 2000, 2001, 2002 e 2003. Vejamos os resultados.

Safra

Vencedor

Placar (notas)

1991

Domaine Leflaive

93 x 91

2000

Domaine de la Romanée-Conti

97 x 95

2001

Domaine Leflaive

96 x 95

2002

Domaine Leflaive

100 x 98

2003

Domaine de la Romanée-Conti

98 x 97

PLACAR FINAL

Domaine Leflaive 3 x 2 Domaine de la Romanée Conti

Domaine Leflaive Le Montrachet 1991

Amarelo dourado carregado, com reflexos alaranjados. Aroma mineral metálico, geléia de laranja, tostados, madeira, mel, avelãs, pêssegos. Paladar estruturado por ótima acidez, já com evolução. 

Nota 93 pontos

DRC Le Montrachet 1991

Amarelo dourado com matiz de evolução, reflexos alaranjados. Aroma rico, com notas de leveruras, mel, nozes, tostados, frutas maduras, laranja confit, gengibre, especiarias doces, nota mineral. Paladar estruturado por ótima acidez, denso, quase mastigável, já mostrando evolução.

Nota 91 pontos

Domaine Leflaive Le Montrachet 2000

Amarelo dourado claro. Aroma elegante e floral, ainda novo, muito limpo, com notas cítricas, lima, limão, madeira, tostados. Paladar de médio corpo, macio, com ótima acidez, muito bem proporcionado. Um Montrachet mais para elegante que potente, ainda jovem.

Nota 95 pontos

DRC Le Montrachet 2000

Amarelo dourado claro e brilhante. Nariz absurdamente elegante, complexo, integrado, limpo e jovial, com notas de frutas cristalizadas, pêssegos, madeira, caramelo, discreta nota mineral. Paladar firme e macio, denso e longo. Um branco com 13 anos de idade, mas que não parece nem 3. Mais elegancia que potencia. Para longa guarda, mas podeser apreciado jovem, ao contrário do 2002.

Nota 97 pontos

Domaine Leflaive Le Montrachet 2001

Amarelo dourado claro e brilhante. Aroma intenso, muito expressivo e muito mineral, com notas de frutas maduras, madeira, tostados, manteiga, leveduras. Paladar encorpado, concentrado, com ótima acidez, longo e profundo.

Nota 96 pontos

DRC Le Montrachet 2001

Amarelo dourado claro, com reflexos esverdeados. Aroma compacto e elegante, um pouco fechado, com notas de nozes, laranja, lima, especiarias, gengibre, nota de verniz e resina que lembra botrytis. Paladar denso, rico e estruturado, com ótima acidez, equilibrio e profundidade.

Nota 95 pontos

Domaine Leflaive Le Montrachet 2002

Amarelo dourado claro e bilhante, com reflexos esverdeados. Aroma elegante e expressivo, muito minetal, rico e complexo, com longa lista de aromas, de frutas, a especiarias, madeiras. Paladar encorpado e untuoso, com perfeita integração e equilíbrio, excepcional acidez, muito longo, profundo. Ainda jovem mas já totalmente aberto e expressivo, para já ou para longa guarda. O melhor da prova, perfeito, espetacular.

Nota 100 pontos

DRC Le Montrachet 2002

Amarelo dourado claro, com reflexos esverdeados. Aroma ainda fechado, mas mostrando bastante mineral, o mais mineral dos DRC desta prova, com notas de caramelo, mel, tostados, frutas cristalizadas, abacaxi, lima. Paladar concentrado, denso, profundo, com excepcional acidez equilibrada com maciez quase untuosa. Ainda jovem, melhor guardar. Para décadas de guarda.  

Nota 98 pontos

Domaine Leflaive Le Montrachet 2003

Amarelo dourado brilhante com reflecos esverdeados. Aroma intenso e fresco, com notas cítricas e florais, além de madeira e muitas especiarias. Paladar gordo e encorpado, muito bem integrado e equilibrado, com ótima acidez, muito longo. Um vinho completo e muito expressivo.

Nota 98 pontos

DRC Le Montrachet 2003

Amarelo dourado claro, com reflexos esverdeados. Aroma concentrado, limpo e muito rico, com notas de cítricos, limão, laranja, pêssego, flores, madeira, tostados, especiarias, mel, manteiga, crème brûllé, caramelo, discreta nota mineral. Paladar aveludado, compacto, estruturado por ótima acidez, equilibrado e muito longo, um dos melhores da prova, sem sombra de problemas com o calor que houve em 2003. Dos DRC provados é o melhor para abrir hoje.

Nota 97 pontos

Veja também : Entrevista com Anne Claude Leflaive

Marcelo Copello

Marcelo Copello


Marcelo Copello é um dos principais formadores de opinião da indústria do vinho no Brasil, com expressiva carreira internacional. Eleito “O MAIS INFLUENTE JORNALISTA DE VINHOS DO BRASIL” pela revista Meininger´s Wine Business International, e “Personalidade do Vinho” 2011 e 2013 pelo site Enoeventos.

Curador do RIO WINE AND FOOD FESTIVAL, e Publisher do Anuário Vinhos do Brasil, colaborador de diversos veículos de imprensa, colunista da revista Veja Rio online. Professor da FGV, apresentador de rádio e TV, jurado em concursos internacionais de vinho, como o International Wine Challenge (Londres). Copello tem 6 livros publicados, em português, espanhol e inglês, vencedor do prêmio Gourmand World Cookbook Award 2009 em Paris e indicado ao prêmio Jabuti.

Especialista no mercado e nos negócios do vinhos, fazendo palestras no Brasil e no exterior, em eventos como a London Wine Fair (Londres). Copello é hoje um dos palestrantes mais requisitados. Para saber mais sobre as palestras e serviços de Copello clique AQUI

  

Contato: contato@marcelocopello.com