Carregando

Aguarde, processando!

Marcelo Copello entrevista Andres Rosberg, novo presidente da ASI-Association de la Sommellerie Internationale

Marcelo Copello entrevista Andres Rosberg, novo presidente da ASI-Association de la Sommellerie Internationale

27/06/2017

Marcelo Copello

Mundo do Vinho

1398 Visitas

Por Marcelo Copello

Leitura fundamental para todos os sommeliers e demais profissionais do vinho.

Conversei esta semana com exclusividade com Andres Rosberg, argentino, que acaba de se tornar o primeiro latino americano presidente da ASI-Association de la Sommellerie Internationale, entidade máxima dos sommeliers no mundo. Andres era presidente da Associação Argentina de Sommeliers, que realizou com grande sucesso o mais recente Concurso Mundial de Sommeliers em Mendoza, em 2016.

Marcelo Copello: Você acaba de se tornar o primeiro latino americano presidente da ASI-Association de la Sommellerie Internationale, superando um francês. O novo mundo está superando o velho mundo na profissão de Sommelier?

Andres Rosberg: Historicamente, a Asociación de la Sommellerie Internacional teve sempre presidentes europeus, até que alguns anos atrás escolheu um japonês. Eu sou o primeiro presidente não-europeu ou japonês, o que é uma grande honra e um grande desafio. Não vejo isso como uma luta entre o velho mundo e o novo mundo. Eu acredito que minha escolha é o resultado de vários fatores convergentes, entre eles o maior peso que vem adquirindo os países consumidores de vinho, em uma associação que no passado girava em torno de França, Itália e outros países produtores. Isso reflete uma necessidade de uma mudança geracional, demandada pelos países que estavam na periferia da tomada de decisão.

A ASI é cada vez mais horizontal e participativa, em um processo no qual deixou de ser quase exclusivamente Europeia, para se tornar cada vez mais uma associação verdadeiramente internacional, com novas parcerias na Ásia, nas Américas e até na África. Como parte deste processo podemos citar a trajetória da Associação Argentina de Sommeliers, que realmente tem sido muito ativa nos últimos dez anos, para citar apenas os fatores mais óbvios.

MC: Quais os principais metas e desafios de seu mandato, até 2020?

AR: As metas e os desafios são muitos e se complementam. É importante unificar padrões de serviço no mundo. Hoje um sommelier na Itália, quando tem um cliente dos EUA não sabe se deve provar um vinho antes do cliente, por exemplo. Temos que levar a somellerie para países onde não esta presente, principalmente na Ásia, Américas e África, e é vital conseguir a incorporação dos EUA à ASI. É preciso mostrar aos restaurantes do mundo que contratar um sommelier é um investimento e não uma despesa.

Temos que valorizar o papel do sommelier em muitos países onde a profissão existe mas os profissionais não são bem pagos ou reconhecidos. Temos que trabalhar a comunicação e posicionamento tanto dos profissionais como da ASI como instituição. A ASI precisa desenvolver ferramentas para que as associações nacionais de sommeliers possam melhorar a formação dos profissionais. Envolver-se na promoção do consumo responsável de vinho e outras bebidas.

Como metas temos também a organização de dois concursos

continentais em 2018 – o das Américas, em Montreal; e o da Ásia e Oceania, em Kyoto; além de um concurso mundial em 2019, em Antuérpia. Vamos ainda preparando as celebrações de 2019, quando teremos os 50 anos de fundação da ASI.

Há muito a ser feito, e é precisamente o que torna este trabalho muito estimulante. A ASI é uma ferramenta poderosa para melhorar a realidade de sommeliers do mundo!

MC: A profissão de sommelier está se tornando popular, atraindo muitos jovens. A que você acha que se deve este fato?

AR: Ser sommelier é um trabalho muito duro. Você tem que trabalhar fins de semana, Natal e feriados, carregar caixas de vinho, passar longas horas andando sem parar, polir centenas de copos, ficar horas “internado” em uma adega sempre que é necessário fazer um inventário, ou queimar os neurônios atualizando a carta de vinhos quase diariamente. Mesmo assim ainda estou convencido de que este é o melhor trabalho do mundo, e acho que muitas pessoas percebem isso. A profissão de sommellier está passando por um grande momento.

A globalização, que faz com que um restaurante em São Paulo compita com um em Napa, e a proliferação de novas regiões vinícolas no mundo, por exemplo, tornam a figura do sommelier é cada vez mais necessária para os restaurantes e para os comensais.

O futuro parece ainda mais brilhante: o nosso trabalho não pode ser, pelo menos não no curto prazo, facilmente substituído por robôs, enquanto a chegada de carros auto-dirigidos pode revolucionar as vendas de vinhos, hoje reprimida pela lei-seca.

As redes sociais estão amplificando as vozes de sommeliers, que falavam apenas com algumas centenas de clientes em seus restaurantes e agora falam com vários milhares de seguidores em suas redes sociais. Ser sommelier é um duro esforço, mas vale a pena, porque a somellerie tem um grande presente e um futuro brilhante.

MC: Qual seu conselho para quem quer se iniciar nesta carreira?

AR: A primeira coisa que uma pessoa que quer começar na somellerie precisa entender é que este métier é serviço, e não simplesmente saber de vinho ou outras bebidas. A vocação necessária é a de servir, fazer feliz um cliente melhorando sua experiência gastronômica.

Ser um sommelier profissional não é ir beber com os amigos, como muitos pensa (embora ao longo do caminho surjam oportunidades de provar vinhos inalcançáveis). Um sommelier profissional precisa estar preparado para o esforço e para uma maratona que não tem linha de chegada, já que nunca será possível conhecer todos os vinhos do mundo, mas na qual se aprende muito. É por isso que a curiosidade é um fator vital para o desenvolvimento de um bom sommelier.

E aplicar os requisitos necessários para fazer um bom trabalho em quase todas as profissões do mundo: perseverança, trabalho em equipe, humildade, comunicação, estudar ... É um trabalho sacrificante, mas emocionante!

MC: O Brasil nunca teve um finalista no concurso mundial de Sommeliers, o que você acha que nos falta?

AR: Ter um candidato em uma final do Concurso Mundial de Sommeliers é algo que pode ser atribuído a vários fatores: 1- o trabalho da associação nacional de sommeliers de um país (no caso do Brasil, a ABS – Associação Brasileira de Sommeliers), 2-a personalidade do candidato, 3-um pouco de sorte, 5-a competitividade dos outros candidatos, o que é cada vez maior, e 5-a outros fatores.

Uma associação nacional de sommeliers que esteja fazendo um bom trabalho, deveria ser capaz de conseguir um lugar entre os semifinalistas, que geralmente são cerca de 25% dos participantes no total.

Acima de tudo, isso é conseguido com o tempo e dedicação. A associação nacional de sommeliers deve se dedicar à melhoria contínua da formação de sommeliers profissionais, organizar bons concursos nacionais regularmente, escolher os melhores candidatos, fazê-lo com antecedência para que os candidatos tenham tempo para se preparar, apoiar a sua formação, etc.

O último concurso mundial, em 2016 em Mendoza, foi realizado em abril, enquanto o concurso para escolher o melhor Sommelier do Brasil aconteceu em março do mesmo ano. Ou seja, apenas algumas semanas antes da competição.

A incerteza e falta de preparação prévia podem tornar quase impossível ter um finalista e muito difícil ter mesmo um semifinalista.

Hoje em dia os concursos estão cada vez mais competitivos, e não há espaço para a improvisação. A única receita é trabalhar duro e com constância ao longo do tempo, com foco em um objetivo claro. Não há segredos, nem atalhos ...

MC: Meu festival de vinhos, o RIO WINE AND FOOD FESTIVAL, promove anualmente o concurso Sommeliers do Ano ( http://abs-rio.com.br/eventos/concurso-sommelier-do-ano ), em parceria com a ABS-Rio. Este concurso já está em sua 5a edição e a cada ano ganha mais repercussão, revelando novos talentos. Este ano inclusive premiaremos o campeão com uma viagem à Nova Zelândia. Como a ASI vê iniciativas como esta?

AR: A ASI apoia cada iniciativa que visa a promoção e divulgação da sommellerie, o desenvolvimento de novos talentos, a melhoria contínua da nédia dos profissionais, e fortalecer associações nacionais de sommeliers que a compõem.

Marcelo Copello

Marcelo Copello


Marcelo Copello é um dos principais formadores de opinião da indústria do vinho no Brasil, com expressiva carreira internacional. Eleito “O MAIS INFLUENTE JORNALISTA DE VINHOS DO BRASIL” pela revista Meininger´s Wine Business International, e “Personalidade do Vinho” 2011 e 2013 pelo site Enoeventos.

Curador do RIO WINE AND FOOD FESTIVAL, e Publisher do Anuário Vinhos do Brasil, colaborador de diversos veículos de imprensa, colunista da revista Veja Rio online. Professor da FGV, apresentador de rádio e TV, jurado em concursos internacionais de vinho, como o International Wine Challenge (Londres). Copello tem 6 livros publicados, em português, espanhol e inglês, vencedor do prêmio Gourmand World Cookbook Award 2009 em Paris e indicado ao prêmio Jabuti.

Especialista no mercado e nos negócios do vinhos, fazendo palestras no Brasil e no exterior, em eventos como a London Wine Fair (Londres). Copello é hoje um dos palestrantes mais requisitados. Para saber mais sobre as palestras e serviços de Copello clique AQUI

  

Contato: contato@marcelocopello.com