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LE PIN, um vinho de culto.

LE PIN, um vinho de culto.

18/08/2018

Marcelo Copello

Mundo do Vinho

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Por Marcelo Copello

Le Pin. Um dos vinhos mais raros e caros do mundo. Ao mesmo tempo um vinho jovem, de história recente. Este tinto do Pomerol, região na margem direita de Bordeaux, tem um estilo peculiar, que sempre surpreende, quase sempre encanta.

A HISTÓRIA DO LE PIN

O Pinheiro (Le Pin), foi como Jacques Thienpont batizou sua nova propriedade, adquirida em 1979. O nome vem da árvore solitária que faz sombra a pequena casa, no terreno de apenas 1,6 hectares que esta família de negociantes belgas comprou da viúva Loubie. Entre 1924 e 1978 a família Loubie vendia suas uvas para elaboração de Pomerol genérico.

Thienpont, acreditando no potencial daquele solo, pagou um milhão de francos pela propriedade (bem mais do que aparentemente valia na época), e reformou toda a estrutura, além de nos anos seguintes anexar novas parcelas para formar os 2,3 hectares atuais. 

A primeira safra do Le Pin, 1979, foi feita com barricas descartadas pelo vizinho Vieux Chateau Certan (também propriedade da família Thienpont). A produção foi ínfima (muitas das vinhas havia sido replantadas naquele ano e ainda não produziam) e vendida a preço de banana. Cada garrafa de Le Pin 1979 era vendida na época por algo em torno de US$ 20. Hoje uma única garrafa de Le Pin 1982 sai no Mercado internacional por algo entre US$ 10 mil, se puder ser achada (e com risco falsificações).

Esta escalada de preços (e de fama) começou justamente na safra 1982, quando o crítico de vinhos mais influente da história, Robert Parker, “descobriu” o Le Pin e lhe concedeu a nota máxima: 100 pontos. De um vinho pouco conhecido, mesmo dentro de Bordeaux, o Le Passou a objeto de desejo de colecionadores em todo o planeta.

Tive a sorte de provar o Le Pin 1982 em 2016 e de fato é espetacular. Na prova que participei com 300 vinhos de Bordeaux 1982 o Le Pin foi escolhido o melhor. Leia mais sobre o Le Pin 1982 aqui: http://www.marcelocopello.com/post/bordeaux-1982-horizontal-de-300-vinhos

COMO É FEITO O LE PIN

Os atuais 2,3 hectares do Le Pin são de solo de cascalho com argila e depósitos de óxido de ferro (como no seu maior concorrente, o Pétrus), plantados com cerca de 90% Merlot de 10% Cabernet Franc (embora o Le Pin seja 100% Merlot). As vinhas, plantadas com densidade de 6 mil pés por hectare, tem em média 35 anos, com algumas vinhas mais antigas de 60-70 anos.

A produção fica em torno de apenas 8 mil garrafas ao ano. Para os padrões de Bordeaux isso é uma gota! Para se ter uma ideia o Pétrus faz quase 50 mil e o Lafite chega a 350 mil garrafas ao ano.

Os rendimentos, baixíssimos para o padrão da região, ficam entre 30 e 35 hectolitros por hectare, com colheita manual, fermentação em inox, malolática em barrica e amadurecimento em 200% barricas novas por 14-18 meses. Um segundo vinho é feito na propriedade, o Trilogie, um conjunto de parcelas de vinhos desclassificados de três safras do Le Pin e de vinhas mais novas, incluindo Cabernet Franc.

A consultoria é de Dany Rolland, esposa do onipresente flying wine maker Michel Rolland.

O ESTILO ÚNICO DO LE PIN

O estilo do Le Pin é algo único, unindo a pureza dos melhores Pomerol com a concentração, extração e madeira nova dos vinhos modernos do Novo Mundo.

O resultado é um vinho, incomum e indiscreto, potente no nariz e boca, com um perfil aromático frequentemente descrito como exótico e de textura opulenta, com muitos taninos e acidez abaixo do padrão da região. Se um safra jovem, recomendo decantar longamente.

Uma crítica que o Le Pin recebe é por sua baixa acidez e possível consequência em sua longevidade. Não é possível ser conclusivo sobre o tema longevidade, já que não há safras antigas do Le Pin. Como 1979 foi a estreia, e 1980 e 1981 foram safras fracas em Bordeaux, podemos dizer que a safra mais antiga no mercado é 1982, que tinha 34 anos quando eu provei em 2016, e estava ainda com muita vida pela frente.

Outra consequência da baixa acidez acontece em anos quentes, quando é necessário fazer uma seleção mais rigorosa de parcelas, deixando só as melhores para o Le Pin, o resto das uvas ou é vendido ou vai para o Trilogie. Em 2003 por exemplo (ano extremamente quente), o Le Pin não foi feito.

VERTICAL DE LE PIN

Tive a rara oportunidade de provar uma mini-vertical de Le Pin, que relato a seguir. Antes agradeço aos que me proporcionaram esta experiência e que comigo a compartilharam.

Château Le Pin 2001

De cor muito escura ainda com tons rubi. Aroma muito intenso, que salta da taça, e muito complexo, com notas de especiarias picantes, pimenta, musgo, ervas, frutas muito maduras, amora, ameixas, muita madeira nova, tabaco, nota balsâmica, eucalipto, cacau, trufa negra. Paladar vivíssimo, quase elétrico, e com tremendo volume de boca, concentradíssimo, textura aveludada, profundo. Ainda jovem, recomendo uma decantação longa.

Nota: 97 pontos

Château Le Pin 1990

Achei este Le Pin 1990 em estilo puxando mais para o lado de um clássico Pomerol, Cor escura, em tons granada. Aroma intenso e complexo, com notas de grafite, geleia de cereja, figo seco, alcaçuz, trufas, coco, chocolate, couro, terra molhada, final salgado, como shoyu. Paladar concentrado, aveludado, fresco, muito longo, mais pronto que o 1989 da taça ao lado.

Nota: 96 pontos

Château Le Pin 1989

Aroma com grande ataque, quase salgado, queimado, vegetal, horta, musgo, shoyu, especiarias picantes, five spices, chocolate, café, fruta ultra maduras como cassis e ameixa preta, caramelo. Paladar com textura impressionante, ao mesmo tempo poderoso e sedoso, muitos taninos, não falta acidez, extremamente longo. Uma festa para o paladar.

Nota: 98 pontos

Château Le Pin 1983

Granada escuro, aroma intenso, com notas terciárias, como couro, remédio, em meio a muita fruta madura, passas, menta, madeira e muitas especiarias. Paladar encorpado, macio, longo e muito bem equilibrado. Dos Le Pin provados foi o que menos impressionou, parecendo de estrutura bem menor, e já no apogeu, não me parecendo que vá evoluir mais, embora deva se manter ainda por vários anos.

Nota: 94 pontos

Leia também: Marcelo Copello entrevista Michel Rolland, de Mr. Merlot ao Azerbaijão

Marcelo Copello

Marcelo Copello


Marcelo Copello é um dos principais formadores de opinião da indústria do vinho no Brasil, com expressiva carreira internacional. Eleito “O MAIS INFLUENTE JORNALISTA DE VINHOS DO BRASIL” pela revista Meininger´s Wine Business International, e “Personalidade do Vinho” 2011 e 2013 pelo site Enoeventos.

Curador do RIO WINE AND FOOD FESTIVAL, e Publisher do Anuário Vinhos do Brasil, colaborador de diversos veículos de imprensa, colunista da revista Veja Rio online. Professor da FGV, apresentador de rádio e TV, jurado em concursos internacionais de vinho, como o International Wine Challenge (Londres). Copello tem 6 livros publicados, em português, espanhol e inglês, vencedor do prêmio Gourmand World Cookbook Award 2009 em Paris e indicado ao prêmio Jabuti.

Especialista no mercado e nos negócios do vinhos, fazendo palestras no Brasil e no exterior, em eventos como a London Wine Fair (Londres). Copello é hoje um dos palestrantes mais requisitados. Para saber mais sobre as palestras e serviços de Copello clique AQUI

  

Contato: contato@marcelocopello.com