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Há uvas brancas no meu vinho tinto?

Há uvas brancas no meu vinho tinto?

28/06/2016

Marcelo Copello

Mundo do Vinho

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Por Marcelo Copello

Misturar uvas brancas e tintas, ás vezes de várias castas, é uma tradição muito antiga no planeta Baco. Era uma prática comum nos primórdios da enologia "construir" o vinho, fazer o blend, desde o vinhedo. Assim, os antigos plantavam castas brancas e tintas, algumas precoces e outras tardias, todas juntas em um mesmo vinhedo. As proporções eram calculadas de forma que, ao serem colhidas todas juntas haveriam uvas mais verdes junto com outras mais maduras, para, ao serem vinificadas todas juntas, o vinho resultante fosse mais complexo e equilibrado. Os portugueses chamam estes vinhedos multicastas, às vezes centenários, de "vinhas velhas". Na língua de Shakespeare é comum a alcunha de field blend  (mistura feita no campo).

Mistura de tintos com brancas é também comum na elaboração de alguns vinhos rosados, como os espumantes. Na Champagne, uma pequena proporção das tintas Pinot Noir e Pinot Meunier, vinificadas "em tinto", com suas cascas, dará cor rosada ao vinho base branco, feito com Chardonnay e também com as mesmas Pinot Noir e Pinot Meunier, vinificadas "em branco", longe dos pigmentos de suas cascas.

Na Espanha é comum nos bares de tapas e pinchos provarmos vinhos rosados e claretes. Os primeiros são feitos normalmente de uvas tintas, vinificados a frio e com macerações curtas (com pouco contato com suas cascas). Os claretes são misturas de uvas tintas e brancas,

normalmente vinificadas juntas.

É bom lembrar que a prática de misturar vinhos prontos (e não uvas), é proibida na maioria da regiões produtoras ao redor do planeta.

A tradição do Rhône

O caso mais notório de casamento entre brancas e tintas acontece no vale do Rhône na França, mais precisamente na região do Côte-Rôtie. É uma história de amor antigo entre a picante tinta syrah e a untuosa branca viognier. Em nenhum outro lugar do mundo este matrimônio de cores resulta tão harmônico

É justamente este "toque branco" que distingue os Côte-Rôtie de seus vizinhos e rivais Hermitage e Cornas, como melhores syrah do mundo. Enquanto Hermitage e Cornas (100% syrah) levam a fama de mais masculinos, os Côte-Rôtie, embora nem sempre contenham viognier, ficam estereotipados como mais femininos e elegantes.

Os vinhedos da Côte-Rôtie

Os vinhedos da Appellation d'Origine Contrôlée (AOC) Côte-Rôtie são plantados com cerca de 95% Syrah e 5% Viognier. Nos vinhos é permitido de 0% até 20% da branca. Na prática raros que passam de 10% viognier, a maioria fica na casa dos 3-5%, com muitos casos de 100% syrah. Tradicionalmente a Côte-Rôtie é dividida em duaszonas principais, a Côte Brune e a Côte Blonde. Reza a lenda que estas colinas foram batizadas por um nobre local em homenagem às suas duas filhas, morena (brune) e loura (blonde) de personalidades marcadamente distintas. Mais sentido faz pensar que os nomes vêm das cores dos solos, mais escuro do lado Brune, mais argiloso (a região também tem muita silica e xisto), de vinhos mais taninosos, e mais claro, mais calcário, do lado Blonde, de vinhos mais leves e elegantes. É justamente das colinas da Côte Blonde que melhor se adaptou a viognier, que históricamente divide ali o terreno com a syrah. Os vinhos vinhos daqui não raro chegam a 10% de viognier.

A contribuição da viognier     

Acalmar a syrah, dando ao vinho uma textura mais profunda e macia, com um pouco mais álcool, são alguns dos papéis da viognier neste casamento. Além disso vêm dela os típicos aromas florais (violetas) e uma melhor estabilidade na cor. Vale lembrar que a legislação local manda que a viognier seja fermentada junto com a syrah, mantendo a tradição deplantar e colher as uvas juntas, o que lhe custa um pouco de seus aromas florais.

É comum que produtores de syrah mundo afora se mirem Côte-Rôtie e Hermitage como refência. Assim não faltam experiencias com injeção de vionier ao syrah. Austrália e Califórnia são regiões de onde emergem bom exemplares deste corte.

Testei seis tintos com presença de brancas, de França, Austrália, Chile e Espanha

Côte-Rôtie Brune et Blonde 2007, E.Guigal, Rhône-França (Interfood, www.todovino.com.br).

Elaborado com 96% Syrah e 4% Viognier. Cor granada escura com reflexos violáceos. Aroma intenso e rico, com caráter "quente", notas de madeira bempresente e bem integrada com fruta madura, geléias, especiarias doces, defumados, ervas aromáticas, mineral terroso, floral de violetas, tabaco. Paladar encorpado e macio, taninos doces e presentes, acidez moderada-equilibrada, 13,5% de álcool, longo, complexo e sedutor. Ótimo representante do estilo.

Nota: 94 pontos

Shiraz-Viognier 2009, Yalumba, Eden Valley-Austrália (KMM, www.kmmvinhos.com.br).

A Yalulmba é especialista em viognier e o Eden Vally uma exelente região para brancos e para Syrah mais frescos. Elaborado com 94% Shiraz e 6% Viognier,com 10 meses em barricas francesas e americanas. Cor escura, entre rubi e granada. Aroma expressivo, frutado, com frutas negras, geléias de cereja e ameixa, muitas especiarias doces e picantes, da syrah e da madeira, notas de defumados, balsamicos e uma nota floral que nos lembra que há viognier no corte. Paladar de bom corpo, com textura macia, taninos doces, 13,5% de álcool. Estilo novo mundo,com classe e frescor.

Nota: 91 pontos

Caliterra Edición Limitada 2010, Caliterra, Colchagua-Chile (Decanter, www.decanter.com.br).

Feito com 91% Syrah, 6% Viognier, 3% Petit Verdot, com 18 meses barricas francesas 30% novas. Syrah e Viognier não são fermentadas juntas, o blend é feito antes de irem para as barricas . Cor rubi violáceo muito escura. Aroma de frutas negras bem maduras, carvalho, baunilha, tostados, nota vegetal, florais de violeta.  Paladar encorpado, com taninos doces presentes, 14,5% de álcool,  bom frescor

Nota: 90 pontos

La Joya Syrah Reserva 2012, Viñas Bisquertt, Colchagua-Chile (World Wine, www.worldwine.com.br).

Syrah com viognier. Rubi escuro violáceo. Aroma intenso e frutado, com notas de especiarias picantes, frutas negras bem maduras, baunilha, álcool aparece no nariz, tostados, vegetal. Paladar de médio corpo, muito macio, com uma ponta de doçura, taninos doces, acidez moderada, 14,5% de álcool, bem ao estilo novo mundo.

Nota: 86 pontos.

Pata Negra Gran Reserva 2005, Bodegas Los  Llanos, Valdepeñas-Espanha (Casa Flora, www.casaflora.com.br).

Elaborado com Tempranillo e 5% a 10% da branca Airén, com 36 meses em barricas usadas de carvalho americano. Cor granada entre claro e escuro. Aroma etéreo,com notas de especiarias, toques lácteos, madeira, baunilha, musgo. Paladar de médio corpo, taninos secos e prontos, acidez moderada, 12,5% de álcool, gastronômico, simples, correto.

Nota: 83 pontos. 

Oxford Landing Shiraz 2007, Yalumba, South Australia-Austrália (KMM, www.kmmvinhos.com.br).

Elaborado com Shiraz 93% e Viognier 7%. Vermelho entre rubi e granada entre claro e escuro. Aroma de medio ataque, com muitas especiarias picantes, pimenta preta, frutas secas, nota vegetal. Paladar de médio corpo, 13,5% de álcool, taninos doces, acidez moderada, simples, já passou de seu melhor, beber já.

Nota: 82 pontos.  

Marcelo Copello

Marcelo Copello


Marcelo Copello é um dos principais formadores de opinião da indústria do vinho no Brasil, com expressiva carreira internacional. Eleito “O MAIS INFLUENTE JORNALISTA DE VINHOS DO BRASIL” pela revista Meininger´s Wine Business International, e “Personalidade do Vinho” 2011 e 2013 pelo site Enoeventos.

Curador do RIO WINE AND FOOD FESTIVAL, e Publisher do Anuário Vinhos do Brasil, colaborador de diversos veículos de imprensa, colunista da revista Veja Rio online. Professor da FGV, apresentador de rádio e TV, jurado em concursos internacionais de vinho, como o International Wine Challenge (Londres). Copello tem 6 livros publicados, em português, espanhol e inglês, vencedor do prêmio Gourmand World Cookbook Award 2009 em Paris e indicado ao prêmio Jabuti.

Especialista no mercado e nos negócios do vinhos, fazendo palestras no Brasil e no exterior, em eventos como a London Wine Fair (Londres). Copello é hoje um dos palestrantes mais requisitados. Para saber mais sobre as palestras e serviços de Copello clique AQUI

  

Contato: contato@marcelocopello.com