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Friuli, paraíso italiano dos brancos

Friuli, paraíso italiano dos brancos

24/11/2016

Marcelo Copello

Mundo do Vinho

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por Marcelo Copello

O Friuli é a melhor região de vinhos brancos da Itália. Este pequeno pedaço de terra no extremo norte da bota, encravada entre a Áustria, Eslovênia e o mar Adriático, oferece em suas uvas e vinhos uma feliz mescla de influencias francesas, eslavas e germânicas.

Estive lá visitando a DOC Isonzo e degustei ótimos caldos. São brancos (60% da produção) e tintos com uma elegante combinação de peso, frescor e longevidade, sem os excessos de alcool ou carvalho que ninguém aguenta mais.

São vinhos gastronomicos sem dúvida e não devem ser provados muito frios (brancos a 12-14oC e tintos a 18oC), pois perderiam suas nuanças.  A longevidade destes vinhos foi também comprovada em diversas provas que fiz, de tintos e brancos. Guarde sem medo nem pressa. 

Por seu tamanho o Friuli é uma região que não compete em volume e preço com seus vizinhos, o Veneto, e teve então que optar pela alta qualidade.

As DOC´s e o terroir

Com 19.700 hectares de vinhedos entre rios, vales e belas montanhas, o Friuli tem cultivadas mais de 150 castas e está oficialmente dividido em 10 DOC´s, 4 DOCG´s e 3 IGT´s*.

  

Nada mais típico italiano do que esta salada de uvas e DOC´s. Ganhamos nós com a diversidade. Penamos nós para conhecer, entender e provar tudo. Resumindo esta ópera, as  DOCs mais representativas são Collio, Colli Orientali del Friuli, Carso e Isonzo. Com a mesma latitude do sul da Borgonha (46o), o Friuli é o ponto mais ao norte a sofrer influência mediterrânea, com ventos frios e secos vindos dos Balcãns chamados de Bora, amenizados pela briza amena e úmida do mar Adriático. Os solos são bem variados, mas apresentam mais cascalho nas planicies e mais calcáreo nas colinas de Collio, Collio Orientali e na parte norte de Isonzo.

*DOC - Denominação de Origem Controlada

DOC - Denominação de Origem Controlada e Garantida

IGT - Indicação Geográfica Típica

Castas

As castas mais plantadas do Friuli são de origem francesa, trazidas pelas tropas de Napoleão no início do século XIX. São elas: Pinot Grigio, Merlot, Friulano, Chardonnay, Sauvignon Blanc e Cabernet Franc. Todas estas castas, mais a Pinot Noir, geram excelentes vinhos na região, cheio de personalidade. As castas autótones que chamaram a atenção foram:

- Ribolla Gialla, branca com mais de 700 anos de história no Friuli e na Eslovênia. Esta casta,embora pouco cultivada (cerca de 200 hectares apenas) é uma das mais emblemáticas da região. Expressa-se em diversos estilos, de espumantes frescos e cítricos, passando por branco delicados e florais, até brancos de guarda, com passagem por madeira, todos com ótima acidez e mineralidade.

- Malvasia Istriana (ou Malvasia Friulana), branca originária na penísula de Istria na Croácia, que já pertenceu a Itália. Normalmente gera vinhos levinhos, mas provei alguns exemplares de maior estrutura e com com potencial de guarda, mostrando notas minerais salgadas, com muitas especiarias e típicos aromas de camomila.

- Picolit, esta branca é rara, muito pouco cultivada, pode aparecer em alguns cortes, mas sua maior expressão são nos vinhos de sobremesa que podem chegar a sublimes.

- Refosco Dal Peduncolo Rosso, gera tintos escuros, com taninos rústicos e boa acidez, belos vinhos gastronomicos, com notas frutadas e herbáceas.

- Terrano, uma variação da Refosco, plantada nos solos calcáreos da DOC Carso. Gera tintos bem diferentes, ao mesmo tempo leves, frescos, jovens e taninosos, que me lembraram deliciosos vinhos verdes tintos.

- Pignolo, outra casta rara, de baixos rendimentos, com profundidade de cor e sabores e muitos taninos. Gera tintos de duros na juventude mas com complexidade e grande potencial de guarda.

- Schioppettino, gera tintos macios, de médio corpo, com notas de especiarias e frutas vermelhas.

Produtores a visitar

Tenuta di Angoris - Localizada em Cormons (província de Gorizia), a bela sede da Tenuta di Angoris, a Villa Locatelli, do século XVIII, é rodeada de vinhedos e merece uma visita, assim como seus elegantes vinhos merecem uma prova. Sob o comando de Claudia Locatelli, a empresa produz 800 mil garrafas ao ano, produção grande para os padrões da região.

Masùt da Rive- Comandada pelos irmãos Marco e Fabrizio Gallo, a Masùt da Rive é uma pequena vinícola familiar localizada em Mariano del Friuli, com produção de 100 mil garrafas ao ano. A menina dos olhos da empresa é o Pinot Noir, do qual pude provar safras mais antigas, ao lado de exemplares da Borgonha, e comprovar seu potencial.

Jermann - Jerman é um clássico da região, uma boutique na qualidade dos vinhos e na arquitetura da vinícola. Impressionante a limpeza e o cuidado em tudo (não deixe de ver o site). A única notícia ruim é que não permitem fotografar toda esta beleza. A produção é de 900 mil gararfas, em sua maioria Chardonnay, Sauvignon e Pinot Grigio. Não deixe de provar o Picolit.

Tenuta VIllanova - Antigo e grande produtor, fundada em 1499(!), com um belo jardim e uma destilaria que vale a visita (e vale uma prova de grappas). Ao visitar este produtor recomento visitar os vinhedos, que proporcionam uma boa vista da região.

Castelvechio - Esta talvez seja a mais bela propriedade que visitei no Friuli. Localizada em Carso, com um solo peculiar, rico em ferro e manganês, esta propriedade tem sua longa história ligada à guerras, em especial à I Guerra Mundial. Foi da casa principal desta azienda que Vittorio Emanuele III comandou as tropas italianas. Eu mesmo achei uma moeda antiga no vinhedo. Na propriedade de 120ha os jardins são um show à parte. Aqui fiz provas verticais de Cabernet Franc e de Refosco, iniciando em 1991, com vinhos perfeitos.

Vie de Romans - Vie de Romans é uma vinícola jovem e moderna liderada por Gianfranco Gallo, um dos maiores especialista no terroir da região. Fundade em 1978 e localizada em Mariano del Friuli (Gorizia), a empresa é especializada em brancos de alta gama e de guarda. Fiz lá 5 pequenas e  maravilhosas verticais com brancos de 1996 a 2010, que provaram a consistência e evolução destes belos caldos.

Ronco del Gelso - Fundada em 1988 e com uma produção de 150 mil garrafas ao ano, localizada em Cormons (província de Gorizia), a Ronco del Gelso é uma boutique que produz pouco de cada um de seus 12 rótulos, de qualidade média altíssima. Sob o comando de Giorgio Badin, sempre muito sério, na Ronco del Gelso o vinho é a atração.


Vinhos Provados

Provei na região cerca de 150 vinhos, incluindo interessantes verticais de safras mais antigas. Não foi fácil escolher, mas aqui estão os 18 mais representativos destas provas:

Espumantes

Spumante Millesimato Brut Ribolla Gialla 2008, Eugenio Collavini (sem importador no Brasil).

Elaborado pelo método Charmat, com vinho base fermentado parte em barricas. Palha dourado claro, com perlage abundante, de tamanho medio. Paladar cremoso, com aroma expressivo e acidez crocante, com notas minerais, florais, e de especiarias. Elegante e delicado.

Nota: 91 pontos

Spumante 1648 2008, Tenuta di Angoris, (sem importador no Brasil).

Elaborado pelo método champenoise com 100% Chardonnay e 30 meses com as borras. Cor palha dourado claro, com  perlage perfeita. Aroma de amarelas maduras, baunilha, pão torrado, pêssego. Paladar intenso e cremoso, encorpado e delicioso.

Nota: 90 pontos

Brancos

Vieris Sauvignon 2009, Vie di Romans, DOC Isonzo del Friuli, (Mistral, R$ 198,80).

100% Sauvignon Blanc com 8 meses em barricas. Amarelo dourado. Aroma intenso, riquissimo e complexo, com notas de frutas maduras, aspargos, pêssego, mamão, groselha, mentol, baunilha, notas florais e minerais, abriu-se muito ao longo da prova. Paladar encorpado, macio, com 14% de álcool, com acidez para vários anos de guarda.

Nota: 93 pontos

Maurus Chardonnay 2009, Masùt da Rive, Isonzo del Friuli, (sem importador no Brasil).

Palha dourado. Aroma de bastante baunilha, tostados, com notas de frutas brancas, pêra, melão, notas minerais. Paladar de bom corpo, untuoso, 14% de álcool, muita personalidade.

Nota: 90 pontos

Gris 2007, Lis Neris, DOC Isonzo del Friuli, (sem importador no Brasil).

100% Pinot Griogio. Cor palha com reflexos dourados. Aroma de frutas maduras, mel, baunilha, mineral, estrudel. Paladar rico e macio, com textura intensa, acidez moderada mas mantendo bom  frescor, 14,5% de álcool, já com alguma evolução, delicioso para beber já.

Nota: 88 pontos

Malvasia Dileo 2011, Castelvecchio, DOC Carso, (sem importador no Brasil).

100% Malvasia Istriana de colheita tardia, com maceração longa e 8 meses em inox com suas borras (sem madeira). Cor palha clara. Aroma muito denso, rico e complexo, com notas de camomila, mineral salgado e muitas especiarias. Paladar leve, com textura macia, 14,5% de álcool, precisou de tempo na taça para abrir (não servir muito gelado), deve evoluir bem em garrafa. De longe o melhor Malvasia que provei nesta viagem, me encantou.

Nota: 91 pontos

Uve Nostre Ribolla Gialla 2011, Tenuta Villanova, DOC Collio, (sem importador no Brasil).

Palha claro. Aroma delicado, floral e cítrico, com mineralidade salgada. Paladar leve e fresco, ótima acidez, macio, com 12,5%, delicioso e refrescante.

Nota: 86 pontos

Cortes brancos

Collio bianco 2011, Tenuta di Angoris, (sem importador no Brasil).

Elaborado com 60% Friulano, 30% Sauvignon Blanc e 10% Malvasia, sem madeira.

Cor palha clara. Elegante no nariz, com aromas bem integrados, mineral, amendoas, mel, frutas maduras. Paladar leve, seco, 13,5% de álcool, macio, com frecor e boa complexidade. Equilíbradíssimo e elegante

Nota: 91 pontos

Vintage Tunina 2010, Jermann, IGT Venezia Giulia, (Cellar, R$ 225,00).

Um corte que é um resumo das melhores uvas da região: Chardonnay, Sauvignon Blanc, Malvasia, Ribolla Gialla e Picolit. Entre dourado e esverdeado. Intenso e picante no nariz, complexo, mineral, frutas brancas, especiarias e flores. Paladar de bom corpo, 13,5% de álcool, macio, com boa acidez, menos gorduroso que em outras safras (2010 foi ano frio), ainda jovem, precisa de tempo na taça (ou decanter) e na garrafa.

Nota: 91 pontos

Dut Un 2008, Vie di Romans, IGT Venezia Giulia, (Mistral)

50% Chardonnay e 50% Sauvignon Blanc, com 10 meses em barricas. Amarelo dourado brilhante. Aroma expressivo e mineral, com notas de frutas tropicais e madeira de alta qualidade. Paladar de bom corpo, 14,5% de álcool, untuoso e profundo, um branco com finesse, para uns 10 anos de guarda.

Nota: 94 pontos

Tintos

Alfiere Merlot 2008, I Feudi di Romans, DOC Isonzo del Friuli, (sem importador no Brasil).

Rubi viláceo quase escuro, Aroma de ameixas, amoras, com notas herbáceas e florais

toques lácteos. Paladar de médio-bom corpo, um pouco mais concentrado, acidez aparecem bem, com taninos secos e finos, estrutura esbelta e bons 13% de álcool.

Nota: 88 pontos

Terrano 2011, Castelvecchio, IGT Venezia Giulia, (sem importador no Brasil).

100% casta Terrano, sem madeira. Violáceo escuro. Aroma vivo que lembra um Vinhão (Vinho Verde português) no nariz e boca, notas de amoras e minerais. Paladar leve e nervoso, de alta acidez e taninos nervosos, 12% de álcool. Um tinto diferente, vivaz e rústico, para beber jovem, a boa pedida para uma feijoada?

Nota: 88 pontos

Pinot Nero 2009, Masùt da Rive, Isonzo del Friuli, (sem importador no Brasil).

Granada claro. Aroma intenso e denso, deliciosamente típico da casta, com de frutas vermelhas, cerejas maduras, tostados e notas florais de violetas. Paladar leve e macio, com boa acidez, 13,5% de álcool taninos doces e finos, ótima tipicidade,

Nota: 88 pontos

Vigna Truss 2006, Jermann, IGT Venezia Giulia, (Cellar)

100% Pignolo, com 24-30 meses em barricas novas. Rubi escurto, riquissimo no nariz, rústico mas complexo, com notas de resina, passas, couro novo, tabaco, musgo. Paladar com muitos taninos, ainda jovem, seco mas não é duro, com boa acidez, 14,5% de álcool. Este 2006 ainda é uma criança, para longa guarda.

Nota: 93 pontos

Cortes tintos

Sagrado 2005, Castelvecchio, IGT Venezia Giulia, (sem importador no Brasil).

Elaborado com 50% Cabernet Sauvignon, 40% Cabernet Franc e 10% Terrano, com 3 anos em barricas e tonéis. Rubi ganada escuro violáceo. Aroma concentrado de frutas negras maduras, com bom frescor, madeira bem integrada, muitos especiarias. Paladar de bom corpo, taninos secos finos, apenas 13% de álcool, acidez muito boa, longo, precisa de um par de anos, ainda jovem, pode viver mais 5-10 anos.

Nota: 90 pontos

L´Arcione 2008, La Tunella, DOC Colli Orientali del Friuli, (sem importador no Brasil).

50% Pignolo e 50% Schioppettino, amadurece cerca de 3 anos em tonpeis de 500 litros onde fermentou. Granada escuro, Aroma concentrado e doce, lembrado passas, verniz, couro, alcaçuz, muitas especiarias, cereja preta, notas balsâmicas. Paladar de bom corpo, com taninos doces e finos ainda presentes, boa acidez, boa profundidade, 14,5% de álcool.

Nota: 90 pontos

Sintesi dei Capitoli 2009, Ronco del Gelso, DOC Isonzo del Friuli, (sem importador no Brasil).

Elaborado com 60% Merlot e 40% Pignolo, com 2 anos em barricas. Um corte inteligente, com duas das melhores tintas do Friuli, a maciez, fruta e elegância da Merlot, com os taninos e força da Pignolo. O resultado é um vinho bastante completo e complexo, com frutas, especiarias, taninos doces, profundidade e muita presença no nariz e boca, para guarda.  

de álcool

Nota: 90 pontos

Sobremesa

Aur Traminer Passito 2011, Ronco del Gelso, DOC Isonzo del Friuli, (sem importador no Brasil).

100% uvas Traminer passificadas e amadurecidas 1 ano em barricas. Amarelo dourado. Aroma com junta uma nota mineral salgada com um perfil totalmente doce, de mel, caramelo e flores. Paladar bastante doce, mas com ótima acidez e fresco para contrabalancear. Roubou a cena dos Picolits e foi o melhor vinho de sobremesa que provei.

Nota: 92 pontos

Serviço:

www.angoris.it

www.castelvecchio.com

www.collavini.it

www.ifeudi.it

www.jermann.it

www.latunella.it

www.lisneris.it

www.masutdarive.com

www.roncodelgelso.com

www.tenutavillanova.com

www.viediromans.it

Marcelo Copello

Marcelo Copello


Marcelo Copello é um dos principais formadores de opinião da indústria do vinho no Brasil, com expressiva carreira internacional. Eleito “O MAIS INFLUENTE JORNALISTA DE VINHOS DO BRASIL” pela revista Meininger´s Wine Business International, e “Personalidade do Vinho” 2011 e 2013 pelo site Enoeventos.

Curador do RIO WINE AND FOOD FESTIVAL, e Publisher do Anuário Vinhos do Brasil, colaborador de diversos veículos de imprensa, colunista da revista Veja Rio online. Professor da FGV, apresentador de rádio e TV, jurado em concursos internacionais de vinho, como o International Wine Challenge (Londres). Copello tem 6 livros publicados, em português, espanhol e inglês, vencedor do prêmio Gourmand World Cookbook Award 2009 em Paris e indicado ao prêmio Jabuti.

Especialista no mercado e nos negócios do vinhos, fazendo palestras no Brasil e no exterior, em eventos como a London Wine Fair (Londres). Copello é hoje um dos palestrantes mais requisitados. Para saber mais sobre as palestras e serviços de Copello clique AQUI

  

Contato: contato@marcelocopello.com