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Dão, elegância e alma portuguesa

Dão, elegância e alma portuguesa

24/11/2015

Marcelo Copello

Mundo do Vinho

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Histórico

A vinha e o vinho estão no Dão desde tempo imemoriais mas foi no século XIX que a região ganhou projeção, como conseqüência do fenômeno da Filoxera. Como o Dão está naturalmente protegido por Serras, a praga demorou anos a chegar à região, que se tornou neste meio tempo uma importante fornecedora de vinhos para o mercado interno e para exportação. Nesta época 90% dos vinhedos do Dão eram da uva Tourigo, que depois viria a se chamar Touriga Nacional, e já gerava então grandes vinhos, longevos, encorpados, elegantes, com muita cor e ótima acidez.

As primeiras décadas do século XX viram a Tourigo e os grandes vinhos do Dão rarearem. A região foi assolada por pragas como o Míldio e a Maromba, que atacaram a Touriga Nacional, que teve sua área plantada drasticamente reduzida. No último cadastro vitivinícola, de 1986, a Touriga Nacional ocupava apenas 5% da área plantada. Outro fenômeno que mudou o perfil da região foi a criação, a partir dos anos 1940, de cooperativas, o que em um primeiro momento foi positivo ao padronizar a produção e os níveis mínimos de qualidade dos vinhos, mas por outro lado reduziu o número de pequenos produtores-engarrafadores, dos “vinhos de quinta” de alta qualidade. A partir do final dos anos 1980 a Touriga Nacional voltou a ser valorizada, com novos clones, porta enxertos e técnicas de plantio e bons produtores, pequenos e grandes, surgiram. Hoje alguns dos maiores tintos e brancos portugueses trazem o nome Dão em seus rótulos.

Relevo, clima e solo

O terroir do Dão é marcado por seu relevo peculiar e por seu solo, cuja palavra chave é “granito”.  Situada no Planalto Beirão, a região do Dão é circundada por um conjunto de serras: a leste a famosa e belíssima Serra da Estrela, a norte a Serra da Nave (que protegem a região do rigor do clima continental), a sul as Serras do Buçaco, Açor e Lousão, e a oeste a Serra do Caramulo (que evitam a entrada do ar úmido vindo do Atlântico).

O centro desta redoma de serras está o Dão, formado por colinas acentuadas, onde se formam inúmeros microclimas propícios à viticultura, com altitudes entre 400 e 700 metros. Água aqui não falta, fornecida pelos principais rios da região, o Dão e o Mondego, que correm para o sudoeste.

O clima é temperado, com influencia mediterrânea – invernos chuvosos e verões quentes e secos, com cerca de 2.600 horas de sol e 1.000 mm de chuvas por ano. O Clima é irregular e a qualidade dos vinhos pode variar bastante de ano a ano, pois se o outono for chuvoso as podridões podem aparecer.

O solo aqui é marcante – falar de Dão é falar de granito. Cerca de 97% dos vinhedos do Dão fica em solo granítico, que se caracteriza por ser pobre, de textura pedregosa, com ótima drenagem. O granito aqui vai além dos vinhedos e também marca a arquitetura da região, como principal matéria prima de todas as construções. Tudo aqui é de granito: casas, muros, fontes, lagares…

Subregiões, vinhedos e castas

O Dão está subdividido em 7 sub-regiões: Alva, Besteiros, Castendo, Serra da Estrela, Silgueiros, Terras de Azurara e Terras de Senhorim. Os vinhedos ainda são em sua maioria minifúndios de menos de 1 hectare, em boa parte ainda com muitas vinhas velhas, plantadas na primeira metade do século XX com dezenas de castas, brancas e tintas, misturadas em um mesmo vinhedo. Estes vinhedos aos poucos estão sendo convertidos dando preferência às castas recomendadas na região.

As tintas dominam, com 85% do total plantado. As principais castas hoje são, nas brancas: Encruzado, Malvasia Fina, Bical, Carceal Branco e Gouveio. Nas tintas: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfroucheiro preto e Jaen (na Espanha chamada de Mencía).

Nas brancas reina absoluta a Encruzado, uma das grandes castas brancas portuguesas, de grande elegância e complexidade, e também de incrível longevidade. Gera vinhos com toques florais (rosas, violetas), minerais, cítricos, que com a idade ganham notas de avelã e resina de pinheiro.

Nas tintas não há o que discutir, o Dão é a terra natal da maior dentre todas as castas portuguesas, a Touriga Nacional: chamada por alguns autores de “o Cabernet português”, por sua alta qualidade, adaptabilidade a vários solos e personalidade marcante. Existe hoje em Portugal um consenso de que esta é a casta mais importante do país. Como já mencionado, no passado esta casta chegou a ser indesejada, pois produzia muito pouco e era muito suscetível a algumas doenças. Hoje, após muitos estudos, já se sabe como tirar o melhor dela (o porta-enxerto ideal, o melhor sistema de condução, a melhor densidade de plantação, as melhores praticas de poda etc). É uma casta pouco produtiva, geralmente entre 1kg e 1,5kg de uva por pé. Gera vinhos de cor escura, aromas intensamente frutados, lembrando frutas doces como ameixas, cassis e flores como violetas, paladar estruturado, com taninos doces e concentrados, muita complexidade e elegância. Os vinhos de Touriga Nacional normalmente têm grande capacidade de envelhecimento, mantendo por muito tempo suas características e por isso no Douro esta casta reina nos Portos Vintage. Além disso é uma das poucas castas portuguesas que seguem muito bem em “carreira solo”, sem a mistura com outras castas, o que chamamos de mono-varietais ou mono-castas. Nas demais tintas a Jaen está em baixa e a Alfroucheiro em alta, por seu potencial aromático e elegância, ficando bem em cortes com castas de maior estrutura tânica como Baga ou Touruiga Nacional.

TN by Rui Reguinga 2009 (Hannover, www.hannover.com.br ) - Feito pelo craque consultor Rui Reguinga com uvas da excelente Quinta dos Roques, para comemorar seus 20 anos de carreira. Rubi escuro violáceo. Aroma bastante intenso, com boa complexidade, muito frutado e floral, com notas de frutas vermelhas, violetas, tostados. Paladar encorpado, com taninos finos e doces ainda presentes, boa acidez, 14% de álcool, equilibrado. Estilo moderno, sem preder a aptidão gastronomica Nota: 91 pontos

Reserva 2008, Quinta do Cerrado (Adega Alentejana, www.adegaalentejana.com.br) -Elaborado com 20% Jaen, 40% Tinta Roriz e 40% Touriga Nacional, com 12 meses em barricas de carvalho português. Rubi escuro. Aroma complexo, bastante floral, com violetas, mineral elegante, abriu-se muito na taça. Paladar de médio corpo,13% de álcool, ótima acidez, taninos finos, muito elegante. Belo Dão, cheio de personalidade. Nota: 90 pontos 

Pedra Cancela Touriga Nacional 2010 (Vila de Arouca, www.viladearouca.com.br ) - Rubi violáceo bem escuro. Aroma intenso e frutado, frutas negras intensas, madeira bem casada, nota vegetal, geléias, violetas, mineral terroso, chocolate. Paladar de bom corpo, textura macia, 14,5% de álcool, taninos doces, nota doce, boa tipicidade da casta, fácil de beber. Expressivo, frutado, e muito típico da casta. Nota: 89 pontos

Quinta do Roques Touriga Nacional 2008 (Decanter, www.decanter.com.br)

Granada escuro. Aroma elegante e rico, com notas de frutas vermelhas frestas e limpas, eucalipto, mineral terroso, muitas especiarias, rosas, chocolate. Paladar de bom corpo, com 13,5% de álcool, taninos e acidez bem presentes dão estrutura para guarda. Estilo sério, deve ainda evoluir bastante.  Nota: 89 pontos

Quinta do Perdigão Reserva 2005 (Mistral, www.mistral.com.br)

Elaborado com Touriga Nacional 50%, Tinta Roriz 20%, Jaen 20% e Alfrocheiro Preto 10%, com 15 meses em carvalho francês e americano. Rubi granada escuro. Aroma intenso e bastante frutado, ameixas e amoras bem maduras, geléias, madeira presente e bem colocada, baunilha, alcaçuz, violetas, ervas. Paladar encorpado, concentrado, taninos doces, acidez equilibrada. Está em seu auge. Nota: 89 pontos

Pedra Cancela Malvasia Fina-Encruzado 2011, (Vila de Arouca, www.viladearouca.com.br) Amarelo palha. Aroma de medio ataque elegante, notas minerais e doces, de frutas cítricas e cristalizadas, florais, baunilha (madeira). Paladar de leve a médio corpo, taxtura macia, com boa acidez equilibrado e longo edelicioso, longo com nota de doçura no fim de boca, muito bom e ainda jovem deve evoluir em garrafa. Nota: 88 pontos

Quinta da Falorca branco 2010 (World Wine, www.worldwine.com.br). Elaborado com 85% Encruzado e 15% Malvasia Fina. Amarelo palha claro e brilhante, com reflexos esverdeados. Aroma intenso, rico e elegante, com muitas flores e frutas cítricas, especiarias. Paladar estruturado por excelente acidez, 14% de álcool, bom meio de boca, gordo. Expressivo, para consumir agora ou guardar. Nota: 89 pontos

Solo 2009, Caves Velhas (Domno, www.domno.com.br) Rubi quase escuro violáceo. Aroma intenso e típico, com frutas vermelhas maduras quese queimadas, violetas,  defumados. Paladar de medio-bom corpo, macio, 13,5% de álcool, taninos doces, boa acidez e muita tipicidade. Nota: 88 pontos

Ribeiro Santo branco 2011, Magnum Vinhos (Max Brands,www.mxbrands.com.br)- Elaborado com Encruzado e Malvasia Fina, parcialmente ferntado em barricas onde permaneceu 4 meses. Amarelo palha claro esverdeado. Aroma fresco e elegante, com notas cítricas de abacaxi, macã verde, notas florais, madeira zparece discreta, com notas de  amanteigados e baunilha. Paladar de médio-bom corpo, cremoso, com 13% de álcool e boa acidez, longo. Nota: 87 pontos

Quinta das Estrémuas Touriga Nacional 2005 (Grand Cru, www.grandcru.com.br )- Rubi escuro violáceo. Aroma intenso, bastante mineral, com notas de frutas negras,, especiarias picantes. Paladar de médio bom corpo, seco, com taninos finos e macios e presentes, 13% de álcool, boa acidez, conjunto bem equilibrado, gastronomico. Nota: 87 pontos

Quinta de Cabriz Touriga Nacional 2009, (Interfood, www.todovino.com.br)- Rubi escuro violáceo. Aroma de bom ataque, frutado, nota de madeira discreta e bem integrada, ameixas, violetas, notas erbáceas. Paladar sseco, de médio corpo, boa acidez, taninos finos e secos, ainda presentes, gastronomico. Nota: 86 pontos

Malvasia Fina 2011, Quinta dos Maias (Decanter, www.decanter.com.br ) - Branco papel. Aroma de médio ataque, floral e mineral elegante. Paladar muito leve, muito elegante, textura cremosa, acidez moderada, com leveza e ótimo equilibrio. Nota: 86 pontos

Encruzado 2010, Quinta do Cerrado (Adega Alentejana, www.adegaalentejana.com.br ) – Amarelo palha muito claro. Aroma fresco, cítrico e mineral, limão amarelo, Paladar leve e macio, com acidez muito boa, delicioso e com boa tipicidade da casta e região. Nota: 85 pontos

Quinta de Cabriz Encruzado 2010, Dão Sul (Interfood, www.todovino.com.br ) - Branco papel esverdeado. Aroma delicado de médio ataque, floral e cítrico. Paladar muito leve, macio, bom equilibrio maciez-acidez. Nota: 84 pontos

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Marcelo Copello

Marcelo Copello


Marcelo Copello é um dos principais formadores de opinião da indústria do vinho no Brasil, com expressiva carreira internacional. Eleito “O MAIS INFLUENTE JORNALISTA DE VINHOS DO BRASIL” pela revista Meininger´s Wine Business International, e “Personalidade do Vinho” 2011 e 2013 pelo site Enoeventos.

Curador do RIO WINE AND FOOD FESTIVAL, e Publisher do Anuário Vinhos do Brasil, colaborador de diversos veículos de imprensa, colunista da revista Veja Rio online. Professor da FGV, apresentador de rádio e TV, jurado em concursos internacionais de vinho, como o International Wine Challenge (Londres). Copello tem 6 livros publicados, em português, espanhol e inglês, vencedor do prêmio Gourmand World Cookbook Award 2009 em Paris e indicado ao prêmio Jabuti.

Especialista no mercado e nos negócios do vinhos, fazendo palestras no Brasil e no exterior, em eventos como a London Wine Fair (Londres). Copello é hoje um dos palestrantes mais requisitados. Para saber mais sobre as palestras e serviços de Copello clique AQUI

  

Contato: contato@marcelocopello.com