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Como nascem os drinks

Como nascem os drinks

07/09/2018

Marcelo Copello

Mundo do Vinho

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por Marcelo Copello

“Sempre trago comigo uma garrafa, no caso de ver uma cobra – que também sempre trago comigo”, W. C. Fields.

“Não me importo de ser levado a beber. O que me preocupa é ser levado para casa” W. C. Fields.

Em seus primórdios, o vinho raramente era bebido puro. Os antigos gregos consideravam o consumo do fermentado em seu estado natural uma prática de bárbaros, avessa ao bom gosto. O néctar de Dionísio, ou Baco, era diluído em água (normalmente do mar), adoçado com mel e temperado com as mais diversas especiarias. Preparar o vinho era uma verdadeira arte, destinada aos symposiarcas, os primeiros sommeliers ou bartenders da história. Ao que parece, estas misturas à base de vinho talvez tenham sido os primeiros coquetéis de que se tem notícia. Daí em diante, a criatividade dos bebedores foi amplamente usada a serviço das misturas, e não se limitou a usar apenas vinho como base alcoólica. Alguns drinques tornaram-se clássicos, quase tão importantes quanto a bebida pura que lhes serve de base.

Mas todo amante de coquetéis sabe: um drinque, para tornar-se famoso, precisa ter berço e história, como uma espécie de certidão de nascimento ou carteira de identidade. Os verdadeiros clássicos costumam ter muitos inventores, reproduzir várias “receitas originais” e estar cercados de lendas. Não raro é impossível determinar com precisão a verdadeira origem.

Muitos surgiram de fatos curiosos, como o Sidecar (conhaque, suco de limão e Cointreau). Foi criado em 1931 por Harry MacElhone, do Harry’s Bar de Paris, no dia em que uma moto se chocou contra o estabelecimento e quase o destruiu. Verdade ou imaginação inflamada, não importa. Com freqüência, as melhores histórias sobre coquetéis são pura ficção. Um bom exemplo é a versão da criação da caipirinha, deliciosamente relatada no best-seller “O Xangô de Baker Street”, de Jô Soares. No romance policial, Dr. Watson, fiel companheiro de Sherlock Holmes, teria criado o coquetel brasileiro por excelência ao acaso. Na realidade, a batida muito provavelmente foi inventada quando alguém decidiu espremer limão e misturá-lo à cachaça como um remédio para aflições respiratórias. A tese mais aceita é a de que, a exemplo do que aconteceu com a angustura, o gim e alguns licores, a capirinha surgiu como remédio no final do século XIX ou no início do XX, em São Paulo. A hipótese tem fundamento na expressão caipira, que denomina os nascidos no interior e é típica do Estado de São Paulo.

Momentos de tristeza também motivaram a elaboração de misturas. Foi assim em 1861. Enquanto todos na Inglaterra choravam a morte do príncipe Albert, um fiel súdito disse que, naquela data, até o Champagne deveria ficar de luto. Em seguida, serviu a bebida acrescida de cerveja preta. Estava criado o Black Velvet, ou veludo negro.

Outras mesclas favoritas à base do nobre borbulhante tiveram criações mais alegres. É o caso do Bellini, uma refrescante junção de suco de pêssego e espumante. O cenário era a Veneza do início dos anos 40 e o autor, Giuseppe Cipriani, do Harry’s Bar, que buscou inspiração no colorido das obras renascentistas de Giovanni Bellini.

Na galeria das misturas à base de espumante quem reina é o Kir Royal (Champagne e licor de cassis). Criado por Canon Felix Kir, na França, a mistura inicialmente chamava-se apenas Kir e previa a utilização de vinho branco de mesa seco, mas, para ganhar nobreza, na versão “Royal”, substituiu-se o vinho de mesa pelo nobre espumante.

Combinações com Champagne nunca saem de moda e são tão clássicas como “Casablanca”. No cultuado film noir, o Café Americain é o palco para Rick (Humphrey Bogart) virar várias taças do vinho espumante junto da amada Ilsa (Ingrid Bergman). Ao fundo, o piano de Sam (Dooley Wilson). Quando não era apreciado puro, o Champagne se transformava no coquetel de Champagne, típico do sul dos Estados Unidos. Além do vinho gasoso, também estão na taça brandy, açúcar branco e gotas de angostura. A associação de clássicos do cinema com drinques tradicionais é o tema de “Hollywood Cocktails”, de Tobias Steed. Ricamente ilustrado, o livro traz fotos nas quais se pode ver toda a afinidade da fábrica de ilusões com a “cocktail hour”. Segundo o autor, “nos filmes, a hora do coquetel dava aos cineastas uma pausa na ação e uma possibilidade de desenvolver as narrativas. Era também, é claro, um momento de reflexão e de se refrescar”.

O cinema talvez não tenha criado, mas certamente ajudou a tornar memoráveis muitos drinques. O Dry Martini, por exemplo, deve muito de sua popularidade a Clark Gable. Em “After Office Hours” (1935), o galã ajudou a criar o hábito do happy hour e do mito do Dry Martini. Como outros coquetéis, este ícone teria surgido ao acaso. Data do final do século XIX a versão mais aceita para a gênese. Numa espelunca, o barman Jerry Thomas teria improvisado este “rabo-de-galo” para saciar a sede de um viajante que estava a caminho da cidade de Martinez, na Califórnia. O cliente teria gostado tanto da novidade a ponto de desembolsar uma pepita de ouro para pagar a conta.

A receita é aparentemente simples: gim, vermute e uma azeitona para decorar. Basta juntar as bebidas numa coqueteleira, bater com gelo e servir coada. O segredo está na quantidade de vermute – quanto menos, mais “dry”. Muitos colocam apenas algumas gotas, outros, ironicamente, apenas sussurram o nome “vermute” para o copo. O cúmulo é colocar a garrafa de vermute ao lado deste, de modo que um raio de luz transpasse ambos perfazendo uma mistura espectral.

A fórmula foi tão disseminada que originou variações, como o Manhattan, em que o gim é trocado por bourbon e a azeitona, por uma cereja. Uma dama estaria por trás desta criação. De acordo com Steed em “Hollywood Cocktails”, a invenção aconteceu no início do século XX no New York’s Manhattan Club, a pedido de lady Randolph Churchill, mãe de Winston Churchill.

Fatos históricos desencadearam a criação de algumas combinações. O Daiquiri (rum, suco de limão e açúcar), por exemplo, era carregado pelos cubanos em cantis de couro atados à cintura. Os nativos se refrescavam com alguns goles entre a degola de um invasor espanhol e outro. Mais tarde, quando os americanos invadiram a ilha, fizeram-no pela praia de Daiquiri, batizando assim o célebre coquetel, que inicialmente consumiam “medicinalment”, sob o argumento de prevenir a febre amarela. Outra versão aponta ainda o engenheiro americano Jennings Cox, que teria vivido em Cuba no século XIX, como o inventor.

A ilha paradisíaca sempre foi rica fonte de mesclas a partir do rum, o destilado local. O preferido do escritor Ernest Hemingway era o Mojito (rum, suco limão, açúcar, folhas de hortelã e soda), que ele costumava beber fiado nos bares locais. Mais popular entre os moradores do recanto caribenho, porém, é a Cuba Libre, concebido por um soldado americano a serviço na ilha no início do século XX.

Entre histórica e curiosa está a criação da Marguerita, a mais notória miscigenação à base de tequila, acrescida de Cointreau e suco de limão e servida com uma franja de sal. Muitas lendas situam a invenção no velho oeste americano. A versão mais romântica conta que foi criada por um bartender em homenagem à senhorita que emprestou seu nome à mistura. Ela teria se interposto entre ele e uma bala assassina, salvando assim a vida do amado enquanto morria em seus braços.

A resposta vem dos céus. É o Virgin Mary, que segue a mesma fórmula da versão Bloody, porém sem seu elemento ativo, a vodca. O suco de tomate, temperadíssimo, deve ser sorvido com uma prece e uma promessa, a de não se envolver mais com nenhuma Maria derramada em álcool.

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Marcelo Copello

Marcelo Copello


Marcelo Copello é um dos principais formadores de opinião da indústria do vinho no Brasil, com expressiva carreira internacional. Eleito “O MAIS INFLUENTE JORNALISTA DE VINHOS DO BRASIL” pela revista Meininger´s Wine Business International, e “Personalidade do Vinho” 2011 e 2013 pelo site Enoeventos.

Curador do RIO WINE AND FOOD FESTIVAL, e Publisher do Anuário Vinhos do Brasil, colaborador de diversos veículos de imprensa, colunista da revista Veja Rio online. Professor da FGV, apresentador de rádio e TV, jurado em concursos internacionais de vinho, como o International Wine Challenge (Londres). Copello tem 6 livros publicados, em português, espanhol e inglês, vencedor do prêmio Gourmand World Cookbook Award 2009 em Paris e indicado ao prêmio Jabuti.

Especialista no mercado e nos negócios do vinhos, fazendo palestras no Brasil e no exterior, em eventos como a London Wine Fair (Londres). Copello é hoje um dos palestrantes mais requisitados. Para saber mais sobre as palestras e serviços de Copello clique AQUI

  

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