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A taça preta da humildade

A taça preta da humildade

04/12/2018

Marcelo Copello

Mundo do Vinho

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Por Marcelo Copello

“Um especialista em vinhos, ao ser atropelado por um trem, teve seus lábios umedecidos com vinho para que recobrasse os sentidos. ‘Pauillac, 1873’, murmurou ele antes de morrer.” Abrose Bierce 

São muitos os símbolos da humildade na iconografia das civilizações. Das sandálias vermelhas do pescador (os sapatos do papa) às vestes marrons (cor da terra nua) dos franciscanos e ao burrico (no qual Cristo entrou em Jerusalém). Para os discípulos de Baco, sem dúvida o símbolo desta virtude seria a taça preta. De boca mais fechada e cor impenetrável, ela nos mostra que, como diria o romano Plínio in vino veritas, a verdade está no vinho – no líquido e não no rótulo. 

Em uma degustação entre amigos, servido como desafio e competição um vinho em uma taça
preta e nos foi dada uma lista de perguntas sobre o mesmo. O vinho é branco, rosé, tinto, fortificado ou espumante? Seco, adamado ou doce? E safrado ou não? É blend ou varietal? Qual sua idade: jovem com até 20 anos; adulto, entre 20 e 30 anos; maduro, entre 30 e 40 anos; antigo, mais de 40 anos? Qual sua origem (país)? A lista de perguntas era longa e todas valiam pontos.

O vinho da taça preta era, antes de tudo, delicioso. Os aromas eram complexos, evoluídos, com forte acento mineral salgado, notas de mel, cera, madeiras, carvalho, cedro, geléia de limão siciliano, maçãs maduras, especiarias, avelãs, jasmim. O poderoso paladar superou o olfato, mostrando um vinho com idade, mas sem sinais de oxidação ou cansaço, com uma acidez aguda, muito viva e textura cremosa, com muitas camadas de sabor, certamente um vinho de alta gama. 

Não foi surpresa constatar que foram come- tidos mais erros que acertos pelo convivas. Alguns nem chegaram a acertar que se tratava de um vinho branco e quase todos erraram sua idade. Afinal quem poderia ousar dizer que a taça preta guardava um vinho tão antigo, uma jóia da Borgonha, um Montrachet 1947, do produtor Roland Thévenin. 

Fica provado, mais uma vez,que degustar às cegas é uma lição de humildade, uma vitória da pureza dos sentidos sobre as opiniões pré-formadas e, com

um vinho tão bom quanto este na taça, um momento para louvar e servir ao deus Baco. 

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Marcelo Copello

Marcelo Copello


Marcelo Copello é um dos principais formadores de opinião da indústria do vinho no Brasil, com expressiva carreira internacional. Eleito “O MAIS INFLUENTE JORNALISTA DE VINHOS DO BRASIL” pela revista Meininger´s Wine Business International, e “Personalidade do Vinho” 2011 e 2013 pelo site Enoeventos.

Curador do RIO WINE AND FOOD FESTIVAL, e Publisher do Anuário Vinhos do Brasil, colaborador de diversos veículos de imprensa, colunista da revista Veja Rio online. Professor da FGV, apresentador de rádio e TV, jurado em concursos internacionais de vinho, como o International Wine Challenge (Londres). Copello tem 6 livros publicados, em português, espanhol e inglês, vencedor do prêmio Gourmand World Cookbook Award 2009 em Paris e indicado ao prêmio Jabuti.

Especialista no mercado e nos negócios do vinhos, fazendo palestras no Brasil e no exterior, em eventos como a London Wine Fair (Londres). Copello é hoje um dos palestrantes mais requisitados. Para saber mais sobre as palestras e serviços de Copello clique AQUI

  

Contato: contato@marcelocopello.com