ENTREVISTA DE MARCELO COPELLO AO JORNAL HOJE EM DIA (BH)

Pessoal, esta é uma entrevista que dei ao Jornal Hoje em Dia de Belo Horizonte em 20 de Julho de 2008, feita por Mirtes Helena.

 

Nunca é demais falar de vinhos, principalmente quando se sabe que estamos vivendo um momento em que cresce muito, especialmente na classe média, o interesse pelo tema. E especialmente quando quem vai falar é Marcelo Copello, considerado um dos mais influentes formadores de opinião dessa indústria. Conhecido internacionalmente e autor de livros - entre eles «O Vinho e Algo Mais», indicado ao Prêmio Jabuti - ele é jurado de inúmeros concursos e tido como um crítico independente. Não mantém qualquer relação comercial com importadoras, vinícolas, lojas ou empresas de vinho. E foi exatamente para falar sobre julgamento de vinhos que ele veio a Belo Horizonte há dias, onde fez uma série de palestras atendendo convite da Casa do Vinho e da Sociedade Brasileira de Amigos do Vinho.

 

Por que se interessou por vinhos e como se tornou um crítico? Como foi o início?

Entre 1986 e 1993 fui casado com uma italiana de Roma que trouxe o vinho para meu dia-a-dia. Quando me dei conta estava lendo livros a respeito. Em pouco tempo comecei a dar pequenos cursos para amigos em minha casa. Em 1998 fui morar na Itália, em Milão, a poucas quadras da sede AIS (Associazione Italiana Sommeliers) à qual me associei e continuei a ensinar sobre vinhos lá. Na volta ao Brasil, em 1999, a apostila de meu curso tornou-se meu primeiro livro, «O vinho para quem tem estilo», publicado em 2000. O livro, por sua linguagem diferente e ousada para a época, fez sucesso e, em 2001, a Gazeta Mercantil, um jornal bem tradicional, me chamou para fazer uma coluna. Daí vieram outros livros, meu site ( www.mardevinho.com.br), revistas, programa de TV etc, e hoje inauguro a minha escola, a «Escola Mar de Vinho», no Rio de Janeiro, com uma programação bem ousada.

 

O que diferencia você dos demais críticos e especialistas dessa área?

Fui talvez o primeiro jovem a falar de vinho profissionalmente no Brasil, com uma linguagem autêntica, tecnicamente simples e precisa, culturalmente rica e sem firulas, o que não existia naquele tempo. Comecei em 1995, com 29 anos, em uma época em que meus raros colegas tinham bem mais idade e uma postura nada jovial. Mas o que realmente me diferencia é o fato de ter sido o primeiro no Brasil a associar o vinho a outras artes, como a música, estudando de maneira aprofundada a relação do vinho com outras manifestações de nossa cultura. Publiquei pela primeira vez um texto assim em 2001, e no mesmo ano fiz uma «degustação-concerto» com o maestro e cravista Roberto de Regina. Depois publiquei um livro dedicado a este conceito, o «Vinho & Algo Mais» (Editora Record, 2004). Sempre digo que o vinho é apenas um líquido dentro de uma garrafa, mas pode também ser excelente espelho do ser humano, onde podemos ver toda a nossa cultura e a nós mesmos. Se somos poetas, acharemos no vinho muita poesia, se somos cientistas teremos também um terreno fértil no nobre fermentado.

 

Sempre pergunto isto aos entendidos: para apreciar vinhos é preciso estudar o assunto?

O vinho é a mais complexa das bebidas e por isso mesmo a mais apaixonante também. É natural que quem se inicia no vinho seja levado naturalmente a estudar mais e mais. Por outro lado, é perfeitamente possível ter prazer e alegrias com o vinho sem nenhum conhecimento prévio.

 

E será que todo mundo pode «aprender a apreciar», mesmo aquele brasileiro cervejeiro? Para apreciar vinhos ele terá que deixar de lado a cerveja?

É preciso deixar de lado o cinema para apreciar o teatro? Acho que o cervejeiro que descobrir o vinho pode até levar seus novos conhecimentos para o universo da cerveja e se reapaixonar pela loira gelada, apreciando-a de forma ainda mais aprofundada e prazerosa.

 

Concorda que, às vezes, os entendidos fazem tudo para se valorizar, para aumentar a distância entre ele e os outros, os mortais? Já vi e ouvi especialistas definindo cheiros, sabores e aparência com os termos mais estranhos. Um dia um falou que o vinho era «de esquerda».

Concordo plenamente. No Brasil hoje há um especialista em vinhos em cada esquina, a maioria despreparados, com pouca experiência, inseguros e arrogantes, precisando mostrar que sabem. Digo sempre em minhas palestras que o verdadeiro «entendido» é o que dissemina o conhecimento e capacita seu interlocutor a «pensar o vinho» de maneira crítica e com bom senso. A descrição de aromas é o ponto mais caricato, quase cômico. Sempre que tenho chance de degustar com especialistas do primeiro time do mundo vejo que as descrições são simples e funcionais, um serviço ao leitor. Costumo brincar que listar mais de sete aromas é falta grave.

 

E você concorda com aquele famoso especialista que disse que há abuso no preços dos vinhos? Você diria que a gente pode tomar um vinho gostoso pagando 20 reais pela garrafa?

Por um lado, produzir vinhos de alta qualidade custa caro mesmo. Desde a compra de um hectare de boa terra, mudas, máquinas caríssimas, pessoal especializado, barricas etc, sem falar nos impostos exagerados. Mas o que realmente regula o preço é o mercado. Se ninguém almejasse provar os vinhos de prestígio eles custariam mais barato, mas o que acontece é o oposto. Todos querem é o vinho caro e famoso, que assim fica ainda mais caro. Não, não vejo no horizonte no Brasil a possibilidade de termos à nossa disposição uma boa variedade de vinhos gostosos a R$ 20,00 a garrafa. Basta pensar que, destes 20, 10 serão imposto, 5 ou mais são as margens dos intermediários, 2 o quilo da uva, 2 a garrafa, a rolha e o rótulo… O produtor fica com uma parte minúscula. Quando tomamos um vinho em um restaurante, possivelmente quem mais ganhará será o restaurante, o governo com os impostos e o importador. Por último, o produtor.

 

O que me diz sobre as pontuações de vinhos? Imagino que um crítico leva em conta suas preferências, não é? E ele pode, portanto, valorizar e pontuar um vinho que ele tenha gostado e que eu, por exemplo, posso não gostar. Como é esse critério?

Degustar é comparar. Um dos principais itens na capacitação de um crítico é ter provado e provar com freqüência uma grande diversidade de vinhos. Só assim ele poderá colocar cada vinho em seu real patamar de qualidade e estilo (ou tipicidade). O bom crítico terá também a boa técnica e a experiência para minimizar a influência de seu gosto pessoal. Eu mesmo canso de avaliar bem vinhos de que não gosto e vice-versa, pois sei que, mesmo não gostando, ele tem qualidade e tipicidade dentro de sua categoria e por isso terá valor para meu leitor.

 

Gostaria que você falasse sobre o peso do marketing na aceitação de um vinho. Imagino que deve ter um peso razoável, pois são cada dia mais assíduas e agressivas as ações de marketing sobre determinadas marcas.

O vinho é muitas coisas: cultura, saúde e história, mas também um produto de consumo como outro qualquer. O mercado mundial é inundado todos os dias com uma infinidade de novos rótulos, a maioria desconhecidos. Do outro lado há milhares de consumidores que conhecem pouco ou quase nada de vinho, mas querem provar, querem aprender. Que vinho comprar? Neste momento, o marketing atua como uma poderosa ferramenta de venda.

 

Uma questão polêmica: as rolhas. Você é favorável às sintéticas ou acha que elas têm que ser de cortiça?

A rolha sintética está sumindo. A tendência é a tampa de rosca, metálica, conhecida como screwcap, que é muito eficiente para vinhos jovens. Para os vinhos de consumo imediato acho que esse é o vedante ideal, pois tenho provado uma quantidade crescente de vinhos estragados, mais de 100 ao ano, com defeitos causados pela rolha. Mesmo assim, a rolha de cortiça ainda é o vedante mais confiável para vinhos de longa guarda.

 

Você acredita que o brasileiro está aprendendo a tomar vinhos? Que brasileiro é esse? A que classe social ele pertence e onde ele está aprendendo sobre o assunto?

Sim. Observo em minhas viagens que o brasileiro que gosta de vinhos é uma dos consumidores mais interessados e estudiosos do mundo, opinião compartilhada com vários colegas de outros países que visitam o Brasil. O enófilo neófito brasileiro está na classe média. A classe alta sempre apreciou vinhos, embora sem estudar o assunto como estuda hoje. O brasileiro consome tanto quanto o vinho em si, a cultura do vinho em todas as mídias: livros, jornais, revistas, rádio, TV, celular, internet. As viagens enológicas têm grande procura e os cursos, como na minha Escola Mar de Vinho, fazem muito sucesso.

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